Segunda-feira, Setembro 24, 2007
Texto 3: Clara
Trocou as horas dos meus dias por minutos. Trocou meu tédio por vendaval. Trocou os livros na estante por acontecimentos. Trocou os móveis, os tapetes e meu coração de lugar. Trocou meu cheiro. Trocou minha saliva pela sua. Trocou o sono pelo sonho. Trocou um Beatles 1968 por um Mombojo 2006. Trocou a lâmpada do céu da minha boca. Trocou de blusa e saiu pelada. Trocou de signo e mudou o humor. Me trocou.
escrito por
alisson villa
@ 23:45
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Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Texto 2: Nathalia
Entrou na sala com um vestido azul-bravo e os pés descalços. Ralos e lisos e negros, eram poucos os fios de cabelo para trançar entre os dedos e joga-los pra trás. Próximo ao seu pescoço, senti brotar dos poros um cheiro leve de manga. Fechei os olhos e mordi forte. Ela me empurrou e me xingou e levou as mãos ao pescoço. Entre meus dentes, os pequenos fiapos de manga resistiram durante um bom tempo o cutucar de minha língua.
escrito por
alisson villa
@ 00:17
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Terça-feira, Setembro 11, 2007
“Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas, tenho uma mulher atravessada em minha garganta” – A Noite 1, de Eduardo Galeano
Texto 1: Amália
Tranco o amargo entre os dentes enquanto o asfalto corre apressado sob meus pés. O suor brota em minha testa feito estrelas brilhantes em céu anoitecido. Preciso encontrar Amália, preciso agora em grandes proporções. Corro, corro, corro e imagino como será encontrá-la, deitada, usando a calça desbotada ou a sua saia estampada com elefantes coloridos – o lúdico sempre lhe caiu muito bem. Talvez por isso eu, tão seco nas atitudes, sentia minha vida mais lubrificada ao lado de Amália. “Você ainda vai cometer um poema”, ela dizia admirada com meus raros espasmos de lirismo. Não Amália, eu nunca vou cometer um poema, pois o mais próximo que chego de um verso é quando beijo a sua boca. E agora? E agora? Agora corro para encontrá-la carregado da certeza que nunca mais flertarei com seus versos. Minha embrionária carreira de poeta arruinada. Arruinada. Arruinada Amália. Arruinado, meu coração despenca mudo quando entro na sala cheia de pessoas mudas e tristes em sua volta. Toda linda. Nem a calça desbotada, nem os elefantes. Um vestido branco cobre seu corpo Amália. O seu corpo imóvel. Nunca mais poesia com os lábios. E eu corro, para nunca mais te encontrar.

