Terça-feira, Agosto 28, 2007


Fim


Em que olhos vou estar, quando você parar de olhar
pra gente?

Que canções vou escutar, quando você não mais cantar
o que sente?

Por quais ruas vou passar, quando seu passo tropeçar
malquerente?

Em qual constelação devo pousar, quando sua luz apagar
cadente?

Onde instalo inseguranças, quando meu coração virar criança
carente?

Qual cheiro vou usar, quando seu sentido despencar
dormente?

Qual cor vai me avivar, quando seu carinho desbotar
negligente?

E com que forças vou lutar, contra os monstros e serpentes
agora que nosso amor não é mais valente, valente...


escrito por alisson villa

@ 15:36 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Agosto 09, 2007


A empresa


Ao entrar na sala pensei que encontraria um pouco de sangue pelo chão, mas estava tudo muito limpo e com odor agradável. Acendi o cigarro apenas para ter uma ocupação, enquanto esperava alguém me atender. Foi o tempo exato de três tragadas para uma mulher, vestido branco e sapatos igualmente alvos, surgir no recinto. Pediu que eu apagasse o cigarro, enquanto esfregava o nariz com o dedo e entortava a boca expressando um ar de quem não aturava tabaco por perto. Era velha e parecia nunca ter se importado com cremes e cosméticos, pois sua pele se apresentou como a mais enrugada que meus olhos já viram. “Cigarro dá infarto”. Disse sem olhar para mim, enquanto remexia em milhões de papéis sobre a mesa em busca da minha ficha. “E desorganização enruga a pele?” Perguntei bem baixinho, numa infantil resposta ao seu comentário sobre infartos e cigarros. Recebi finalmente um olhar atencioso, porém pouco acolhedor. “Aqui está” – levantando até a altura dos olhos a minha ficha – “Então o senhor deseja morrer porque sua esposa o deixou, é isso mesmo?”. “É”. “Trinta e sete anos, nascido em Belo Horizonte, nenhum filho, programador, destro, nenhuma passagem pela polícia, FUMANTE, dois irmãos, mãe falecida, pai ainda vivo, possui um Gol ano 2001, já teve gastrite, hiperglicemia, fraturou um braço e duas vezes a perna, sua comida preferida é churrasco e nunca saiu do país. Correto?”. “Sou canhoto”. “Como?”. “Sou canhoto, uso a mão esquerda para me masturbar”. “Esqueceu de citar que também é delicado e sutil”. Irônica. Velha e irônica. Era tudo que eu precisava nas minhas últimas horas de vida. “Sinto muito, mas não poderemos matar o senhor”. “Como assim não vão me matar?” “Isso mesmo, não vamos”. “Mas eu paguei cinco mil pratas pelo serviço”. “Antes de sair do prédio o senhor pode passar no setor financeiro que lhe faremos a restituição”. “Porra, não quero merda de restituição nenhuma, eu preciso morrer, paguei por isso, exijo ser atendido”. “Já disse que vamos devolver o dinheiro. O senhor não se enquadra no público-alvo da empresa. Não podemos mata-lo”. “Mas que diabo de público-alvo é esse? Eu só quero dar fim nessa chatice toda”. Que grande besteira tudo aquilo. Se fosse menos covarde saltaria de uma ponte ou encaixava um resolver dentro da boca. Agora estou aqui, exposto ao completo ridículo. Saquei outro cigarro e pouco me importei com as mãos da velha balançando em sinal de negativa. “O caso do senhor é de uma normalidade desanimadora. No início da empresa atendíamos histórias insignificantes como a sua. Mas foi uma fase na qual precisávamos fortalecer o nome da companhia no mercado. Hoje só matamos pessoas com um currículo digno de morte. A sua esposa lhe deixou? Rá! Francamente, já perdi dois maridos para grandes amigas”. “Ora, ora, por que será que essa informação não me surpreende?” Joguei o cigarro no chão, pisei sobre ele e sai da sala batendo a porta, em direção ao setor financeiro. Já na rua, enquanto dava sinal para o táxi, lembrei que não tinha um tostão trocado na carteira - nada mais natural para quem se dirigiu a um lugar para morrer. Tive que rasgar o pacote com o dinheiro que usaria no financiamento de minha paz eterna. Dei de cara com um montante de papel picado. Nada das cinco pratas. Que dia, resmunguei, enquanto fui arrebatado por uma fincada fulminante no peito esquerdo. Minha mente escureceu na mesma velocidade em que desci ao chão. Nunca mais pensei em nada.


escrito por alisson villa

@ 18:21 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Agosto 07, 2007


Cambalhotas de Irrealidades


Teimosos que somos, Vítor e eu estamos de volta no trabalho de misturar palavras com chocolate, whisky, ventos e sorrisos. Visita lá:

www.cambalhotas.org


escrito por alisson villa

@ 11:26 caixa de correio: cartas


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