Terça-feira, Junho 26, 2007


Pequena carta voando perdida pela rua


Paulo querido,

Não te amo mais. Isto é fato. Consumado e que me consome. Na verdade, não te amo mais com a pouca intensidade primeira. Beira agora o inconcebível. Te amo mais e mais e mais. Se antes, meu amor equilibrava-se na pontinha dos dedos, hoje ele nem mesmo roça o chão - amor passarinho fugindo do alçapão.

Não te amo mais nas vinte e quatro horas diárias. Criei novo tempo: 274 horas para a rotação; 6.287 dias para a translação. Agora meu amor tem o tempo necessário para percorrer cada encanto seu. Cada canto seu. Sinfonia da liberdade amorosa. À noite poesia, durante o dia prosa.

Não te amo mais quando avisto seu rosto. Eu amo é o que dele tem de gosto. Lamber seus olhos, lamber sua orelha, lamber sua boca é ver você mais nítido. Meus olhos cegos de amor, minha língua repleta do seu sabor.

Não te amo mais quando diz que me ama. Amo mais quando me toma na cama. Um amor que se joga solto, que colide, que arrebata e, por fim, acalma. Como se rasgasse a pele para, enfim, encontrar a alma.

Paulo, definitivamente, não te amo mais. E te amo sempre.

Da sua,

Clara


escrito por alisson villa

@ 18:00 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Junho 18, 2007


Poesia Plástica ou Porque eu também quero expor no museu
ou Vou botar meu bloco na rua


"Poemas": Alisson Villa
Curador: Danyella Proença

I

Fuuuu fu Fuuuu
O pássaro voa dentro
Fu fuuuu fu
O pássaro voa fora
Fuuuuuuuu

Linhas diagonais riscam o espelho

Palavra do Curador:
O não canto do pássaro está presente não nas linhas firmes e plenas deste poema, mas na arquitetura de suas asas. Dessa forma, Alisson Villa atinge os patamares altos do poema enquanto objeto de vôo e abordagem do ser.

II

O não lugar:
estou nele:
inexisto:
mas insisto:
coexisto.

Perdi meu visto

Palavra do Curador:
Desconstruindo o objeto primeiro da vida que é o ser humano, este poema versa o impossível: o homem sem o homem. O poeta cria pequenas imagens pictóricas a respeito de todo o pseudo futuro, mesmo não estando em corpo nesse espaço.

III

Desconstruir o eu
Vazio opaco
Vaco e vaca
Juntos vão casar
Eu? Padrinho.

Palavra do Curador:
O lúdico como fator principal da dança poética está presente nessa obra de Alisson Villa. Sem medo de se arriscar em um vale de profundas incertezas, o poeta cumpre o papel principal de sua labuta ao oferecer ao leitor prismas de destinos. A vaca é apenas um vácuo dentro de cada ideal. E o poeta assina, permite-se, concorda com essa conciliação.

IV

Cabelos são todos meus
Pentear
Cabelos meus
Seus olhos são todos meus
Olhar
Olhos meus
O ar está solto
Revolto
Revolver
Beatles forever
Chapinha never!

Palavra do Curador:
Sons e vento. Movimento. Alisson Villa passeia por notas musicais que atravessam a pista. Não é preciso acenar para pedir passagem: signos desgrenhados caminham em fila, tecendo uma rede de significados musico-estéticos. O artista também nos apresenta uma faceta menos visível do poema, ao questionar os caminhos da identidade cultural em tempos da pós-modernidade. Nosso cabelo não nega.

V

Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
Plac
P-l-a-c

Palavra do Curador:
A repetição sonida proposta por Alisson Villa funciona como uma hipnose para o leitor. Cada gota de expressão poética reflete uma cor no prisma de possibilidades do sentido. Memória e descaminho onomatopéicos.

VI

As cortinas caídas pela sala não me comovem mais
Como um hamburger
Os hamburgers pela sala não me comovem mais
Dou um nó na cortina
- outro nó na garganta ¿
e varro a casa
O hamburger acabou

Palavra do Curador:
Alisson Villa escorrega pelas cortinas, remetendo-nos a um espaço íntimo e delicado. As paredes simbólicas têm cheiro de sorvete de baunilha. O cheiro dissolve-se na náusea da civilização, tantos são os aromas. A brincadeira perde a graça. A casa sem hambúrgueres denota vazio. O poeta sofre: o nó está dado e o leitor não pode mais desatá-lo. A casa funciona como uma metáfora. Ao varrer as tramas do chão, Alisson Villa nos mostra: comida é pasto. Você tem fome de quê?

VII

As ruas de Belo Horizonte não são as de Paris
As ruas de Belo Horizonte não são as de Londres
As ruas de Belo Horizonte não são as de Berlim
As ruas de Belo Horizonte não são as de Pan pan pan ran ran
As ruas de Belo Horizonte não são as de Tóquio
As ruas de Belo Horizonte não são as de Mucuri
As ruas de Belo Horizonte não são as de Brasília
As ruas de Belo Horizonte não são as de Buenos Aires
As ruas de Belo Horizonte não são as de Barcelona
As ruas de Belo Horizonte não são as de Macapá
As ruas de Belo Horizonte não são as de São José do Bom Despacho Divino
As ruas de Belo Horizonte não são as de Milão
As ruas de Belo Horizonte não são as de Matipó
As ruas de Belo Horizonte não são as de Manaus
As ruas de Belo Horizonte não são as de Pequim
As ruas de Belo Horizonte não são

Palavra do Curador:
O poema chama a atenção do leitor para uma questão cada vez mais urgente: a liqüiescência das formas e da circunscrição do ser no espaço. A cidade funciona como o não-lugar, palco de amores expressos e identidades afogadas em seus inúmeros não-botecos. O duplo é: não. As ladeiras são um eterno espaço de passagem, por isso as ruas revelam-se apenas um simulacro no Google Earth. Matipó ou Mucuri, rua Lavras ou Carmésia. Belo Horizonte não é.

VIII

Quando a primeira gota de orvalho cair no chão o mundo...

Palavra do Curador:
A palavra como semente, como propõe Alisson Villa, é a chave para que gotas de orvalho derretam poesia no chão. O mundo torna-se espaço fértil nas mãos do poeta. Quando a primeira gota de orvalho caiu, a terra amoleceu-se para cambalhotas de formigas. As reticências, na verdade, são três delas girando a poesia de Alisson Villa.

IX

Glória a Deus!
Glooooooooooooooria!
Deus a Glória!
Deeeeeeeeeeeeeeeeeus!

Palavra do Curador:
A métrica inexata da fé está presente nesta obra de Alisson Villa. O grito poderia ser gol ou bingo, mas o poeta traça uma clara separação entre o sagrado e o profano. Em sua sessão poética do descarrego, Villa propõe a busca pelo alcance da palavra em eco.

X

Dez homens andando para Long City
Long City está longe
Quebrando a vida de dez homens
Dez homens andando para Ling City

Palavra do Curador:
Long não é ling e ling não é long. Em seu ping-pong textual, Alisson Villa mostra ao leitor o devir dos homens, soltos em uma geografia errática. A busca torna-se um imperativo diante de identidades partidas. Ling City é, dessa forma, a Pasárgada cinza criada pelo poeta errante.

XI

Azul é Azul
Amarelo é Amarelo
Vermelho é Vermelho
Preto é Preto
Verde é Verde
Branco é branco

Palavra do Curador:
Neste quebra-cabeça do inconsciente, somos convidados a (inter)cambiar as peças. Enquanto desvendamos as cores entre e para além das cores, Alisson Villa distribui algodão-doce e questiona as matizes essenciais da aquarela-poesia.

XII

De um lado o risco
Conjecturas para um salto
Do outro o acerto
Um eu muito fácil
Risco x Acerto
Plenitude do ser
E mesmo que os
plenos passos pardos pensei patavina
eu ainda sou esse complemento descompleto

Palavra do Curador:
O sentimento de enxergar-se como um ser substituto diante do espelho é a tônica do poema, que joga o leitor de um lado ao outro, por meio de e através. Mergulhar na imagem de si mesmo envolve riscos e Alisson Villa sabe disso. Está aí a razão de provocar o fruidor, cujo rosto desmancha-se no reverso do reflexo.

XIII

A palavra está escrita.

Palavra do Curador:
A palavra do Curador, não.


escrito por alisson villa

@ 21:19 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Junho 11, 2007


Enfiada no meu coração


"eu não acredito em tudo que eu mais quero
mas vivo a sonhar com você a me beijar
e essa dor que sara faz viver e acordar pra mim
eu quero ver você dançar
em cima de uma faca molhada de sangue
enfiada no meu coração"
(Faaca - Mombojó)


...durante os primeiros segundos acordado, antes mesmo de abrir os olhos, eu já sentia o colchão colando úmido em minhas costas. Uma poça. Um lago. Faltavam peixes, mas bem podia ser um lago vivo. Não era simplesmente suor. Algo de rubro passava por baixo. E de olhos ainda cerrados pensei que ainda era sonho. Mas em pensando, já estou na realidade, racionalizada, crua. E quando abro os olhos, vejo você dançando em cima de uma faca molhada de sangue enfiada no meu coração.

Eu imóvel. Não porque já estava desidratadamente fraco para qualquer movimento, mas porque observava suas mãos caminhando em câmera lenta em direção aos finos cabelos negros, levantando-os para o alto depois de traspassá-los delicadamente entre os dedos, dando vida aos fios que também caminhavam em lentos movimentos sob o alvo teto como pano de fundo.

Do seu rosto, sorriso nenhum brotava. No entanto, a expressão também não era de raiva, muito menos de tristeza. Apenas a concentrada serenidade de quem tem conhecimento sobre cada milímetro que lhe cabe no espaço. A cintura não circulava agressiva, mas o bastante para que a faca ganhasse cada vez mais espaço dentro de meu rubro músculo. E gota a gota, escorrendo cama abaixo, o sangue criou uma pequena cachoeira, sem pedras, entre lençóis e segredos de toques e respirações.

Por que diria qualquer palavra? Inútil soletrar pobres sílabas quando a cena é digna apenas de traços jogados em dedicada subjetividade. Então, com a ponta do dedo embebida em meu próprio sangue, dediquei ao seu corpo um ornamento de encaracoladas linhas que partiam dos seios e chegavam até o umbigo.

Não durou muito tempo o ofício de pintor. Já não reunia tantas forças para coordenar meus movimentos e escolhi me entregar a uma alienada ação contemplativa. Voltei a ser estátua. Sem destino. O destino era ali. O futuro, o presente, o passado misturavam-se ali, naquele momento de reticências. E perdido sob o seu corpo, as pálpebras cortinaram meus olhos, que viram como última paisagem você segurando a faca vermelha e o coração cinza.

Morto, eu finalmente sonhava.


escrito por alisson villa

@ 20:43 caixa de correio: cartas

Quarta-feira, Junho 06, 2007


Estive pensando


Estive pensando em me apaixonar
mas girassóis não nascem nessa época do ano
Estive pensando em me apaixonar
mas meu olhar anda muito urbano
Estive pensando em me apaixonar
mas meu coração está de mobília antiga
Estive pensando em me apaixonar
mas toda nova pessoa vira amiga
Estive pensando em me apaixonar
mas ando com os cafunés enferrujados
Estive pensando em me apaixonar
mas meus lençóis estão rasgados
Estive pensando em me apaixonar
mas Truffaut não faz mais cinema
Estive pensando em me apaixonar
mas se procuro clara só me aparece gema
Estive pensando em me apaixonar
mas tenho uma afta na ponta da língua
Estive pensando em me apaixonar
mas os poemas de amor estão à míngua
Estive pensando em me apaixonar
mas Quintana virou passarinho
Estive pensando em me apaixonar
mas perdi o juízo no pelourinho
Estive pensando em me apaixonar
mas meu celular está sem bateria
Estive pensando em me apaixonar
mas esqueci como se toca João e Maria
Estive pensando
e não me apaixonei


escrito por alisson villa

@ 20:46 caixa de correio: cartas


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