Quinta-feira, Novembro 24, 2005
É claro que penso em você e escrevo seu nome em um caderno velho e usado - cheirando a pó e soluçando manchas -, hora com letras firmes que ferem o papel, sangrando tinta do outro lado da página onde se encontra uma conta de multiplicação, hora com letras tão leves que a tinta mal escapa da caneta e os contornos das letras exigem da imaginação um exercício de caligrafia.
É claro que escuto seu cheiro de maresia penetrandomeusouvidosroucos e vejo nas nuvens centenas de ondas ganhando forma e tamanho, como se fossem derrubar o sol, inundar Saturno, criar lagoas nas crateras da lua, expulsar os pássaros para o chão e trazer sem asas os peixes para o céu, mas as ondas crescem assustadoras para depois desmancharem-se calmas em alguma praia da Bahia.
É claro que engulo ignorante e primata o seu tempero musculoso e flagro minha boca salivando cachoeiras ao mastigar um pedaço generoso de panturrilha mal passada, acompanhada de seios sem gorduras, a língua organizando o tráfego e o resto do corpo avançando o sinal.
É claro que leio suas metáforas sortidas e catalogo todas elas com a precisão bagunçada dos bibliotecários em estantes e instantes guardadas na lembrança, para depois consultá-las e usá-las nas situações de grande utilidade, como informar a crianças onde comprar vaga-lumes com pilhas novas ou escrever nos postes mensagens que olhos perdidos acabam esbarrando: os apaixonados criam estrelas na palma da mão caso sintam fome durante o dia.
É claro que compreendo seus silêncios e por isso afino meus olhos.
É claro que contabilizo seus sorrisos e me contorço em tentações para jogá-los, um por um, sobre equações que respondem a qualquer dúvida, angústia ou mistério da humanidade, seja a cor dos olhos de Deus ou o gosto do beijo de Cleópatra, porém, a única vez que usei seus sorrisos foi para saber se girassóis entristecem quando chega a noite e a equação resultou, exata, que eles dormem para sonhar com o sol.
escrito por
alisson villa
@ 00:26
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Quarta-feira, Novembro 09, 2005

como uma obra inacabada:
sempre a retocar o gozo
escrito por
alisson villa
@ 23:11
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cartas
Sábado, Novembro 05, 2005
Todo poema apaixonado é um pouco abobado
baba pela gola do verso
ou tropeça em estrelas que nem deveriam estar ali
Poema apaixonado perde a métrica,
distraído que está com lembranças ternas
ou na tentadora vontade de dizer mais do que caberia em um verso elaborado em ritmos e cuidados com a margem do pequeno caderno do escritor.
Mas poema apaixonado tem cheiro:
(Cheiro não tem cor, mas algum sabor)
e suspiro pulando detrás da pauta
trajando, evidente, uma blusa vermelha.

