Sexta-feira, Julho 29, 2005


A boca mexe a boca outra
como se a segunda fosse solta:
bailarina de dentes coreografados


escrito por alisson villa

@ 00:11 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Julho 25, 2005


Giracéu



Vaaaaaaapt! Poft!
...
Olharam-se.
...
- De onde você caiu? - perguntou a menina, exibindo olhos assustados.
Antes de respondê-la, o jardineiro lambeu-lhe o olho esquerdo, guardou a língua na boca e colocou o paladar para funcionar.
- Isto não é uma jabuticaba. Mas como pode, esta cor de nunca mais vida?
- Você não me respondeu - resmungou, enquanto limpava o olho babujado.
Apontou o indicador para cima.
- Veio do céu?
- Não.
...
Mais cara assustada. O jardineiro, pouco convencido, tentou lamber o outro olho da garotinha, mas ela recuou balançando os braços.
- Eu caí do Giracéu.
- Pois nunca ouvi falar de Giracéu nenhum.
- Nem eu de negras bolas que não fossem jabuticabas - protestou, exibindo sob as pálpebras um vivo amarelo que encantou a menina.
- E em Giracéu as pessoas têm olhos de girassol?
Não respondeu, pois apressou os passos em direção a uma margarida de moribundo corpo a lutar contra o sádico vento que soprava persistentemente contra o seu já enfraquecido caule. De joelhos sobre a terra, vez com as duas mãos um muro para proteger a flor.
- É inútil, já está morta - resignou-se a menina -, não vê como suas pétalas estão rasgadas e o caule quebrado?
O jardineiro, mãos ainda em muro alto, lento levanta em lapsos a cabeça e finta durante ligeiros segundos a menina, que vê o rosto do homem encoberto por um pequeno arco-íris, mistura dos olhos em sol com lágrimas caladas. Ela nunca vira tristeza tão bela. Corre; corre pois quer tocar aquelas cores. Mas não coordena bem os passos e desastrada vai ao chão, derramando a cabeça sobre uma pontiaguda pedra que nem gostaria de participar da história.
- Ah! Sim! Agora vejo Giracéu, estão me chamando - diz a menina, cerrando para sempre seus novos rubros olhos irrigados de sangue que escorre calmo como um velho rio, enquanto o jardineiro lhe protege o rosto com as mãos imitando um muro.

Foto de Laura Wrona


escrito por alisson villa

@ 00:20 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Julho 18, 2005


Hipopótamo Genival


I

O hipopótamo Genival cria galinhas para ter sua própria reserva de ovos frescos. Genival adora avos. Come omelete no café da manhã, ovos fritos no almoço e, à noite, adora colocar para dentro da bocarra a iguaria perfeitamente cozida.

Genival morreu de enfarto.

II

Genival, o hipopótamo, fez um lindo papagaio de três cores. Como sorri ao ver a armação de sedosa celulose e envergadas varetinhas bailando entre as nuvens. À noite, Genival adormece banhado por sonhos nos quais seu papagaio voa pelo espaço, visitando Plutão e Saturno.

No jornal da manhã seguinte, a notícia: três motoqueiros morrem decepados por linha com cerol.

III

Gê, hipo, brinca na lama com seus quatro filhotes. Desengonçadamente, correm e deslizam os pesados corpos pelo extenso lamaçal. O mais atrapalhado de todos é o próprio Genival, que cambaleia suas toneladas de um lado ao outro, fazendo enorme sombra por cima dos pequenos.

Genival brinca na lama com seus três filhotes.

IV

O nascimento da manhã é anunciado pelo barulhento piar do bando de canários. Eles picam pequenos alimentos que grudam nas enormes costas do hipoGeni, que na noite anterior passeava romanticamente com a esposa por uma plantação de tomates. Mas o romantismo e o passeio terminaram quando a esposa de Genival começou a reclamar do forte cheiro de agrotóxico.

O fim da tarde é anunciado pelo silêncio ensurdecedor.


escrito por alisson villa

@ 21:57 caixa de correio: cartas

Quarta-feira, Julho 13, 2005


"Beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado" (Namorar Pelado - Beijo na Boca - Mc Pelé)

Mensalão; Roberto Jefferson; Jota Quest; fácil, extremamente fácil; Luciana Gimenez; SUPER POP!; CPI; trabalho infantil; trabalho escravo; trabalho mal remunerado; Marcos Valério; publicitade é a alma do negócio; João Batista Ramos; dízimo; a fé move montanhas; Igreja Universal; Bento XVI, Igreja Católica; dogmas; cueca; dólar; dólar; dólar; dólar...

"O dólar é moeda falsa/O americano já não segura as calças/A Alemanha quase
pedindo esmola/A inglesa não usa mais calçola/Na Itália não tem mais sutiã/ Suíça não lava a bunda de manhã / Ô, cabrobó, eles vão tomar no fiofó" (Moeda Falsa - Tom Zé)


escrito por alisson villa

@ 10:26 caixa de correio: cartas

Sábado, Julho 09, 2005


A mulher na tela



Maria pensa um traço. Não qualquer um. Mas aquele que, ao leve toque das cerdas do pincel no ainda branco quadro, transmita uma opinião em relação ao mundo. Nada de comodismo, pois o mundo não pode esperar, precisa de ações definidas e diretas, porém maduras e sensatas. "Algo que traga não apenas uma simples vaidade em meio a texturas e cores, mas que revele uma postura diante dos cotidianos olhos observadores", ela explode em elucubrações.

Arrisca o primeiro, o segundo, o terceiro traço, um a um, movidos por uma espécie mágica de energia, puxam outros tantos novos traços como a força de um imã. Os olhos de Maria acompanham firmes a frenética dança que seus punhos impõem. Ela mostra-se inundada de inspiração, certa do caminho a seguir naquela manhã de domingo em que o sol entra calmo pela janela do ateliê.

Os sons em volta encontram um filtro envolvendo seus ouvidos, que permite penetrar e ganhar atenção apenas o que importante é. Dessa forma, a sinfonia que lhe acompanhava era composta pelos seguintes instrumentos musicais: pincel tocando a tela, bem-te-vi sobrevoando a casa, filha chamando o cão, madeira do móvel estalando, bossa tocando longe, cão latindo para a filha, pincel tocando a tela.

Tomada pela adrenalina da criação, Maria puxa a tela para o seu colo. Ela quer ter a máxima proximidade possível daquele ato. Por sua roupa a tinta escorre, em contrapartida dos contornos firmes que vão transformando o vazio em arte. Quantos tem a chance de saborear tão sublime momento? É a vida recriada em potências de belo e significante. Seus dedos, braços e rosto também recebem respingos em cores. Um arco-íris tatuado pela alegria ainda contida na concentração que já invadia a tarde.

Por um instante ela cessa os traços e, tombando levemente a tela para trás, observa a pintura: pela rua da cidade, uma mulher nua caminha sobre os olhos atentos de homens e outras mulheres. Maria sente que precisa doar personalidade à personagem central da pintura, que apresenta uma postura demasiadamente frágil. Ela não pode chamar atenção simplesmente pela nudez, seria uma solução simplista e tola.

Correndo o pincel sobre a tela, ela segue vestindo o corpo da mulher. E começa a surgir um vestido de tom sóbrio, porém leve o bastante para dançar com o vento a música que embala a cidade de carros desfocados ao fundo e luzes embaralhadas no alto dos prédios. A mulher na tela agora é vista pela desenvoltura em que atua no contexto: há um leve mistério que exaure dos contornos encobertos com sutileza. A cidade é apenas um pano de fundo diante de sua existência e as pessoas que passam ao seu lado percebem isso.

Não é mais o sol, mas sim a sutileza da lua que agora entra pela janela do ateliê. O tempo não ousou incomodar com seus sinais, resolveu passar suas horas nas pontas dos pés. Maria finalmente descansa a tela sobre os cavaletes. Levanta-se espreguiçando demoradamente todo o corpo sujo de tinta. Mas não se sente feia e acabada. Pelo contrário. Chega a conclusão que se pudessem vê-la naquele instante, assim como as pessoas que observam a mulher na tela, definiriam-na simplesmente como realizada e bela.

Ilustração: Rodrigo Kurz


escrito por alisson villa

@ 00:45 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Julho 04, 2005


Perguntas penduradas nas costas do vento


A folha branca escreve silêncios na caneta?

A cortina é um girassol sem vontade própria?

O copo rumina a água antes da boca?

As letras ganham alma quando viram palavras?

O pintor de paredes faz quadros sem espaço em branco entre a tinta?

A música é a literatura trajando bermuda?

A fotografia é um momento que sempre acontece?

O galo canta por que vê o dia pulando o muro do horizonte?

Se chuva tivesse asa apagava todo o sol?

Água tem som de vida por dentro?


escrito por alisson villa

@ 23:41 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Julho 01, 2005


Na madrugada


É madrugada,
eu sei,
o sol ronca, qual bronca, em distante esplanada.
Nem parece um rei.

É madrugada,
eu sei,
as folhagens estão cercadas pela escuridão pesada.
Teriam infringido a lei?

É madrugada,
eu sei,
morcegos avistam sem olhos a negra coordenada.
Lêem mapas como a bíblia o frei?

É madrugada,
eu sei,
atrevo-me a escrever manoelmente poemas sobre o nada.
Finjo o que nunca serei.


Ps.: Deixo meu beijo de madrugada de estrelas para a Reiza, que criou toda a nova cara do Walrus.


escrito por alisson villa

@ 21:55 caixa de correio: cartas


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