Quarta-feira, Abril 20, 2005
Cinco e meia da manhã, Pintassilgo desperta para a tradicional revoada diária junto aos outros pássaros da região. Em um primeiro momento, assim como os sonoros piados, o caminhar do bando forma-se de maneira desordenada, com desencontradas batidas de asas e alguns atropelamentos, que não se tornam fatais devido ao grande número de fofas copas de árvores a resguardar os acidentados. Mas na mesma medida em que o volume da cantoria abaixa, o entrosamento entre os pássaros aumenta, transformando parte do céu em uma sinfonia visual de belos movimentos coreografados.
Alinhados em forma de flecha, o bando corta o ar em zugue-zague-zumpts: mergulhos de asas fechadas, que, ao pressentirem a aproximação do solo, esticam-se em delicada planagem rente ao chão, algumas penas presas em folhagens mais precipitadas. Já de volta às altezas alturas, ora aparecem sob as nuvens, ora cortam-nas para um sobrevôo, costurando, dessa forma, os desenhos que os Homens pensam criar em imaginação.
E ao sobrevoarem a última e mais gorda nuvem, todos os pássaros transformam-se em nefelibatas pousando sobre ela para o discurso habitual, que neste dia estava a cargo de Pintassilgo. Foram ditas poucas palavras, algo a respeito da igualdade de penas e ao direito a mais pólen. Algumas propostas são analisadas e o debate coloca fim à revoada diária. Tudo saudado pela entusiasmada cantoria daqueles pássaros que inauguram a manhã.
escrito por
alisson villa
@ 09:35
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Sábado, Abril 09, 2005
Estou faminto,
um tesão afoito.
Quando teremos bis coito?
escrito por
alisson villa
@ 21:30
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Terça-feira, Abril 05, 2005
O livro aberto sobre a mesa
O avião aberto sobre o céu
O Deus aberto sobre nós
O olho aberto sobrancelha
Vende-se casas.
Vedem-se casas.
Vem de casa.
Vendo, casa: vejo, logo matrimonizo-me.
O amor fechado longe do coração
O açougue fechado longe do coração
O ventrículo fechado longe do coração
Era um vez duas crianças que brincavam perto da fogueira; uma morreu queimada, a outra foi presa.
O mão aberta sobre a alma
O vida aberta sobre a palma
Por esta palavra não ser nada
cada letra triste e mimada
migra para um país sem favela
está na novela
O fim fechado sobressalto.
(E lá fora um cheiro áspero de asfalto)
escrito por
alisson villa
@ 18:04
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Sexta-feira, Abril 01, 2005
A cutícula
Tal e qual erva daninha, alastra-se pela unha com a desculpa de querer protege-la. Pro diabo com sua super proteção! É sempre esse mesmo discurso, em que os possessivos do mundo debruçam-se trajando a capa heróica da ajuda a qualquer preço. Cutícula, não há mais espaço para caminhar sobre a unha, pois já são inúmeros os penduricalhos que criamos para tais funções: Organizações Não Governamentais e seus assistencialismos baratos que ajudam a acalmar a consciência de quem muito tem, mas quer ter sem culpa; psiquiatras para cuidar da folha enquanto a raiz apodrece; psicólogos para cuidar da raiz enquanto as folhas padecem; Deus, Maome, Buda, Iemanjá, Zeus, todos tomando cerveja em um boteco da 20051978 dimensão enquanto apostam quem terá mais humanos se descabelando em prol de seus ensinamentos para uma vida eterna; poetas descrevendo de forma bela como a vida é uma merda e como a merda da vida tem lá suas belezas escondidas em cantos escuros e miúdos; as redomas dos pais; os cafunés do amor de sua vida; os sete dias sem juros no cheque especial... Está vendo, pobre Cutícula, a lista pode ser infinita - assim como manda o figurino do estilo literário que dá ao leitor neste exato momento uma falsa sensação de plenitude do texto. Portanto, aceite este alicate com a dignidade de não insistir em ressurgir de tempos em tempos, pois desse modo estará apenas me atrasando um pouco mais para a festa de todas as noites.

