Sexta-feira, Agosto 27, 2004
A noite calva de estrelas passa envergada sobre minha cabeça de homem perdido no meio do espaço, perdido nas ruas desta cidade natal que hoje parece me desabitar, perdido nas enchentes que inundam meu peito que dói, dói, dói, uma dor de não ter nomes, uma dor para Lispector romancear com suas palavras que doem, doem, doem o peito inundado de enchentes que me tornam perdido do que nem mesmo sei o que procurava, como se desde o nascimento meus milhões de passos não tivessem me levado para além útero, uma prisão que ainda pareço habitar, padeço habitar, em uma forte tendência edipiana de conviver com minha mãe por dentro, o meu centro do mundo, o meu cais, o meu lugar comum, a minha frase feita, música de Lennon em parceria com McCartney, samba de terreiro com cerveja e feijoada, Romeu e Julieta, Hitler e Bush, dentre tantos outras junções que vão moldando o mundo de forma a me fazer acreditar que já deixei o útero, que esse céu envergado não é mais a barriga dela, que essa dose seca de wisky não é a comida cuidadosamente moída e transportada pelo canal do umbigo, parte do corpo que me falta um pedaço para ligar-me de volta a realidade dos nove meses, como se esse tempo fosse o suficiente para estudar as alturas do mundo, de onde saltam pára-quedistas e suicidas, em um balé no qual os dois apresentam coreografias idênticas, uma vez que ambos permeiam uma espécie de desejo pela morte, seja de forma objetiva ou fragmentada, muito diferente do caminho inconsciente que fazemos em direção ao fim ou, como no meu caso, de volta ao útero do qual na verdade ainda me encontro, imaginando noites calvas de estrelas, escritos sem ponto e leitores em busca de um final que justifique o tempo que gastaram colando uma palavra a outra na minha-sua fútil busca por significados.
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alisson villa
@ 01:54
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Segunda-feira, Agosto 23, 2004
Quando seu pau visita minha boceta
uma sinfonia contamina o quarto
num parto natural de sons com asas de borboleta:
suor bemol, gemido sustenido...
lapido em seu corpo um acorde recém-nascido:
líquido espasmo com sétima em gozo.
E a escala musical retorna ao merecido repouso.
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alisson villa
@ 20:20
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Sexta-feira, Agosto 20, 2004
ou As palavras guilhotinadas da rainha Rosoflora III
- Como é que escreve poesia?
- Entortando o caminho da frase.
- E como é que se apaixona?
- Aí é alinhando.
- As frases?
- Não, os corações.
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alisson villa
@ 01:08
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Sábado, Agosto 14, 2004
O Seqüestro
Hoje foi o dia do seqüestro.
Levei-me para aquele lugar
Onde só eu sei meu preço.
Rose Rocha
Escondida atrás desta velha caixa d'água nunca fui encontrada por ninguém. Escuto os gritos me chamando - alguns tão próximos que travo os dentes para que o coração não solte pela boca, outros tão distantes que é preciso recostar a orelha na fria parede da caixa d'água para escutá-los. Procuram em todos os cantos, mas nunca onde realmente estou. Este é o meu grande truque de mágica. Invisível, sou a única a escutar o meu pulmão reciclando seu alimento ou a sentir o cheiro do shampoo de maçã verde escorrendo pelos meus cabelos.
Mas em alguns momentos cogitei a possibilidade de não existir, pois a solidão amplifica essas dúvidas. Cheguei a contar os dedos da minha mão como se tal atitude pudesse trazer a certeza de que eu continuava sendo eu. Na dúvida também contei os dedos dos pés. Como poderia estar realmente viva se os bonequinhos que rabiscava com pequenas pedras pontudas pelo chão nunca seriam vistos por ninguém? Foi nesse instante que atirei com raiva a pedra contra a copa de uma árvore.
Eu não conseguia quantificar o tamanho da felicidade que penetrava o meu corpo, deixando-me completamente bêbada, ao ver a pedra que eu havia arremessado provocando o vôo de um bando de pássaros que descansavam sobre a árvore. Seriam pintassilgos? Meus inocentes pensamentos fervilhavam, torcendo para que fossem, pois somente um bichinho com nome de asas tão abertas poderia participar do meu número de mágica.
E até hoje volto a me esconder tranqüilamente atrás desta velha caixa d'água, sem trazer nos bolsos nenhum temor, pois bem sei da minha secreta pedra a fazer pássaros revoarem sobre a cabeça das pessoas que não cansam de me procurar.
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alisson villa
@ 17:46
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Quarta-feira, Agosto 11, 2004
Dança - 1. Seqüência rítmica de versos encadeados em rimas camufladas; 2. Técnica milenar de espantar ferrugem; 3. O corpo em estado de cata-vento; 4. A parte interior de um furacão; 5. Soluços compulsivos; 6. O caminhar da boca por um corpo desconhecido (Ex.: Primeiro lhe ofereceu um sorriso, em seguida um beijo e, por fim, a boca completava sua trilogia com uma dança tão intensa que era possível escutar os repetidos pliés da língua bailarina, em Breve Trilogia da Boca, de Rita Apoena).
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alisson villa
@ 21:32
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Sábado, Agosto 07, 2004
Eu e o cachorro amarelo escondido embaixo do prédio do Niemeyer, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. A foto é da Nanna.
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alisson villa
@ 15:04
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Quinta-feira, Agosto 05, 2004
Quem pode acreditar hoje em dia
- se a dúvida é mais sadia -
em pescadores anônimos de estrelas?
Tais convicções melhor não tê-las,
assim como os amores eternos
e as listras horizontais de antigos ternos.
Mas e se a teimosia prevalece
e alguém estica alto os braços quando anoitece?
Bem capaz de uma estrela se encher de compaixão,
saltando de olhos fechados até o chão.
E vendo a cena consumada, outras tantas são encorajadas:
uma, duas, três, quatro, cinco estrelas tornando-se aladas,
tentam pintar o céu com sua desconcertante trajetória rubra
antes que a descrença nos encubra.
*Nome da nova constelação descoberta durante este mês de agosto por Chris O. - psicóloga e física do Centro de Estudos das Palavras Cadentes.
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alisson villa
@ 23:10
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Quarta-feira, Agosto 04, 2004

Anos atrás, Juliano Polimeno acordou no meio da noite com diversas palavras pulando sobre o lençol. A primeira atitude foi esfregar os olhos na esperança de empurrá-las de volta para dentro do sonho, de onde saíram durante o breve momento em que linha que separa o sono do despertar torna-se fina o bastante para misturar os acontecimentos desses dois mundos. Mas o esforço foi em vão, pois a linha já havia engrossado e as palavras ficaram presas no mundo real.
Um adjetivo aproximou-se do rapaz e disparou a falar com uma voz esganiçada: "Bonito barbudo, tonto e sonolento"! Ao levantar da cama, Juliano observou que o chão também ganhara um enorme tapete repleto de vocábulos. Um verbo aparentando mais idade tentou lhe explicar: "Dormia, acordou, pulamos, gostamos, ficaremos". Maria, Vítor, Ingrid, Ane, Eduardo, Renata, Rodolfo, Breno, Mauro, Roberta, Hilan... eram vários os substantivos subindo a parede, ganhando o teto, agarrando o lustre e pulando de volta para o chão.
Coração de não ter medida, Juliano adotou aquelas palavras abandonadas no mundo real. Deu-lhes rima, ritmo e sentido. E hoje, como podemos observar, estão todas bem encaminhadas na vida, empregas em belos poemas e textos de encher páginas e páginas de boa literatura.
Foto: Edu Moraes - www.cabezamarginal.org/imagetico
Texto: Alisson Villa

