Sexta-feira, Julho 30, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Oitavo Mini Capítulo: O Hospício

A noite chega engolindo movimentos, sons e conspirações. E aos pensamentos que desejam uma sobrevida, resta a única opção do recolhimento ao hospício do sono onde, vestidos com a branca roupa dos sonhos, podem vagar por mais tempo, porém, com o pouco confiável raciocínio dos lunáticos:

Agora é Alice quem salta pela janela. Não chega a tocar o chão. O frio da noite cria uma fina camada de gelo pelo seu corpo. O destino já foi calculado. Atravessa a rua tropeçando em morcegos. Chega ao passeio em um vôo morno;

Lúcia a aguarda na porta de casa. Também foi contaminada pela segunda pele gélida da noite. Em uma das mãos, seu vinho preferido transborda pelo gargalo. Ela avista Alice dobrando a esquina. Esvazia a garrafa em um só gole. Embriagada, seus pés descalços não sentem mais o mármore do alpendre;

Elas encontram-se no alto, bem ao lado das desesperadas mariposas a rodear a luz do poste. Uma delas entra pela boca de Alice, que coloca a língua para fora fazendo careta. Lúcia experimenta uma risada de criança. O gelo que as envolvia é quebrado com um abraço demasiadamente demorado o bastante para transformá-las em duas simpáticas velhinhas, donas de se.

Olham em volta e não avistam mais a luz do poste e as mariposas. Agora é a lua e as estrelas a testemunhar o reencontro. E lá embaixo, a Terra tão pequena... mas não menor que o triste instante do despertar.

***


escrito por alisson villa

@ 00:06 caixa de correio: cartas

Quarta-feira, Julho 28, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Sétimo Mini Capítulo: O namoro

Lúcia nunca respondeu o e-mail. Alice ainda enviou outro, na pura esperança de que o primeiro tivesse se perdido em alguma esquina virtual, mas também não obteve resposta. "Não há de que", Alice caminhando resignada até o banheiro. "Eu preciso de mais tempo longe da sua doce influência", Lúcia remexendo a gaveta de remédios. No que Alice parou enfrente ao espelho: "Será que ela me beijaria novamente?". Lúcia passando pomada na queimadura: "Tão doce que me elevava a estado de filha". "Certamente já tem quem o faça", pegando a escova de dente. "Uma filha única, de exclusiva devoção", tampando o frasco. "Que bobagem", cuspindo a espuma...

...confortavelmente alojada no sofá da sala, Alice espreguiça: "Apresentava-se igual a tantas outras, para depois desdobrar-se em singularidades encantadoras". Lúcia volta à cama com um sorrisinho no rosto: "Era divertido assustá-la com minhas idéias absurdas". "Nadar pelada na piscina do prédio às três da manhã!", o arrepio do corpo movimentando o sofá. "Mas é certo que, no fundo, é muito mais louca que eu. Onde já se viu, mergulhar logo atrás e passar a mão pelo meu corpo por debaixo d'água", gargalhando. Em espasmos, a mão já perdida: "O seu gemido crescendo como uma onda próxima a arrebentar dentro do meu ouvido atento". Sem saber se era riso, choro ou gemido: "Ela descendo até o fundo com aquela língua encaracolada". ¿Suas pernas apertando minha cabeça contra seu corpo que, nitidamente mais úmido que a própria água, ameaçava-me a afogamento", retorcendo-se em espiral. "Cores, cores, cores, qual a cor desse trovão?", desfalecida.


escrito por alisson villa

@ 23:35 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Julho 27, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Sexto Mini Capítulo: O Poema

Querida Lúcia,

Como estão as coisas na nova casa? Ainda colocando em ordem? Espero sinceramente que você tenha aprendido a importância em se passar a gola de uma camisa, pois sem eu por perto para fiscalizar as coisas podem ficar um tanto amarrotadas... brincadeira minha...

Sabe, hoje tive a clara impressão de que meu pensamento fugiu do meu corpo e partiu em direção à sua casa. Eu não pensava em você, mas sentia como se estivesse do seu lado.

Estranho dizer essas coisas logo no primeiro contato que temos depois que terminamos, né? Não vou te aporrinhar mais com esses papos transcendentais! Mas tenho que confessar que escrevi um poeminha sobre o assunto e resolvi mandá-lo, pois sei que de versos você gosta.

Um beijo da Alice.

Pensar

Meu pensamento tem sete cordas
sete cordas vocais
uma para cada grito da semana

Meu pensamento é sempre branco
e com cada rio, cada pedra, cada pasto,
meu branco pensamento vai se tornando vasto.

Meu pensamento mergulha no vento
e no vento se espalha
para encontrar pelo mundo
outros pensamentos que o valha


escrito por alisson villa

@ 01:11 caixa de correio: cartas

Domingo, Julho 25, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Quinto Mini Capítulo: As Mãos Dadas

Aproveitando o distanciamento de Alice e o fato de Lúcia ter ido à cozinha fazer café - uma ocupação que não exige muito do pensar, pois trata-se de uma ação praticamente automática - os dois resolvem dar uma volta pela rua. Os pensamentos de Lúcia ficam um pouco receosos. Mas segurando suas mãos, os pensamentos de Alice quiseram dizer: "Não tenha medo, veja o que eu aprendi". E saltam juntos pela janela.

No caminho até a praça na qual o casal costumava freqüentar nos dias quentes, os dois pensamentos passam pela banca de revistas do Sr. Adamastor. "Está mais magro", pensaram os pensamentos. O mesmo não podiam dizer sobre a moça do carrinho de sorvete, que mais experimentava do que vendia os doces gelados. Sentaram-se no banco em frente ao lago dos patos. Uma sobrancelha arqueada: "Tem cara de Genésio". O ombro em círculos: "Está mais para Claudionor". Sorriram um sorriso tímido, um pouco quente, pois lá estavam novamente dando nome aos patos, a lúdica brincadeira que divertia as duas moças no tempo de casal, mas que agora acontecia apenas em pensamentos. Estes, no entanto, tiveram que interromper a prazerosa ocupação, pois foram sugados de volta para suas respectivas donas, uma vez que Lúcia queimou a mão com a água do café e Alice resolveu escrever um e-mail.


escrito por alisson villa

@ 13:20 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Julho 23, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Quarto Mini Capítulo: O Encontro

Das rugas em rachadura da tinta branca, os pensamentos de Lúcia pulam bruscamente para o modo como Alice passeava os longos dedos pelas suas pernas quando desejava arrepiá-las em ondas intermináveis. Surpresos, os pensamentos de Alice desequilibram-se sobre a porta e adentram o quarto desgovernadamente. Vento. É a resposta enviada pelos olhos de Lúcia aos seus pensamentos. Estes, no entanto, sabem o real motivo do movimento brusco da porta.

Frente a frente, os dois pensamentos trocam olhares curiosos, como dois cãezinhos a varejar um novo visitante. Novo no momento, conhecido de momentos. Em um balé bem coreografado, um sabia exatamente os passos que o outro daria: um levantar de mãos:"a vida vai indo". O olhar para cima: "mas vai para o caminho certo"; O giro e uma queda: "como saber?".


escrito por alisson villa

@ 00:48 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Julho 22, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Terceiro Mini Capítulo: As Impressões

Entrando pela janela - nota-se uma certa prática no assunto - os pensamentos de Alice caminham pelos cômodos da nova casa de Lúcia. O ambiente, vazio de móveis e cheio de bugigangas espalhadas pelo chão, ganha rapidamente o rótulo de abandonado, como se a última pessoa que passara por ali tivesse nascido em 1850, apesar do Laptop piscando sua lenta proteção de tela no canto da sala. Não há sons. Tudo tão lento, a vontade é encostar-se em uma das paredes e derreter até o rodapé.

Há um longo corredor e uma luz no quarto ao fundo. Da porta entreaberta os pensamentos avistam Lúcia deitada em um colchão sem cama, lençol branco, uma calcinha preta, os pequenos seios livres e arrepiados pela corrente de ar - da janela? da porta? do coração? - o olhar perdido no teto e seus pensamentos sobre como a tinta branca envelhece com o passar dos anos. A garrafa do seu vinho preferido está caída ao lado do colchão, agora totalmente cheia de vento.


escrito por alisson villa

@ 00:36 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Julho 20, 2004


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Segundo Mini Capítulo: Os Números

O namoro terminou há duas semanas e não se falaram mais. Moraram juntas durante quase três anos, apesar de nos últimos dois meses viverem separadas na mesma cama. Lúcia apareceu com um papo de crescente incompatibilidade. Alice - que sempre achou que o verdadeiro amor durava exatos 43 anos, sete meses e cinco dias, ou seja, tempo suficiente para passear tranqüilo com a felicidade - decresceu em angústias. Chorava pelo menos duas vezes no dia. Esses eram os dias bons. Nos péssimos, o número quadruplicava para cinco choros compulsivos e três suspirosos.

No dia 13 de março, um sábado, uma tarde, Lúcia deixou o apartamento levando, dentre outros objetos: duas calças jeans e duas de brim; um vestido azul com um furo na barra; meia taça do seu vinho preferido; 33 cds, entre eles um do Adoniran Barbosa e três do Portishead; um livro de capa amarela e encardida que impossibilitou descobrir qual era o título e o autor; a metade dos copos, a metade dos garfos, a metade das facas, a metade dos passos que perturbavam a vizinha de baixo; incógnita no fundo da bolsa, as duas chaves da varanda, que desde então não é visitada; um videocassete; e três cartelas de comprimidos para gastrite.


escrito por alisson villa

@ 22:37 caixa de correio: cartas


Pensamor ou Lapsos são poemas ou História solta do pensar


Primeiro mini capítulo: A fuga

Bastou Alice distrair-se por alguns segundos para seus pensamentos fugirem cabeça afora e saltarem cinematograficamente pela janela. No princípio, sua preocupação era apenas com a possibilidade deles se resfriarem: corpo quente, chuva fria. Não queria os pensamentos gélidos, quanto mais aqueles que fizeram dela uma desregulada torneira a gotejar pelo pequeno jardim de flores crespas. Gotas quentes, como se o sol, por um século e meio, queimasse o ferro retorcido de seu corpo que agora deságua com o gira girar de uma válvula.

No entanto, os pensamentos já não estavam enjaulados na parte transparente do cérebro onde moram, como que vento, como que líquido intocável, seres antagônicos a neurônios detentores de massa corpórea, pensamentos simplesmente existindo entre espaços intraduzíveis. Agora, eles atravessam a rua em direção a um destino obscuro. O sinal abre, eles saem correndo. Escorregam na poça. Chegam ao passeio em passos capengas. Alice se acalma por um instante. O instante termina. Percebe que o destino dos pensamentos é a casa de Lúcia.


escrito por alisson villa

@ 00:36 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Julho 16, 2004


As incríveis aventuras do velho e bom Piegas


(À Anna, leitora do Walrus que inspirou a história - não porque que ela seja piegas!!!)



O velho e bom Piegas encaixa a chave na fechadura e começa a girar o corpo 360 graus para abrir a porta. Quando chega nos 90 graus, com os pés jogados de lado, lembra que sua esposa não estaria em casa. Aborrecida com as infinitas manias de Piegas, ela o deixara, levando embora os filhos e a coleção de Sinatra. "A coleção do Sinatra" - suspirou, lembrando que sem o cantor não poderia criar mais nenhum clima romântico: a lareira nunca mais acesa, sua adega de vinhos às teias; o roupão vinho dependurado para sempre no armário; nunca mais o eu te amo querida; "Nunca mais! Que vida cruel! Deus deveria ter pena! Até quando? Por que logo comigo?" - balbuciava.

Os cabelos de Piegas apontam em direção ao chão, atingindo os 180 graus, ele está de cabeça para baixo. Sem saber como segurá-las, suas sortidas idéias escorrem pela cabeça: "O Rio de Janeiro é lindo; Chico Buarque é um bom compositor, mas tem a voz feia; Ao teu amor, lhe entrego a flor; Amigo é pra essas coisas; Pra quem tem fé nada é impossível".

As idéias já não despencam, 270 graus, agora os pés inclinam-se para a esquerda. Piegas é canhoto. Sente-se em casa. A esquerda. À esquerda. Seu orgulho desde criança. Achava-se importante quando comentavam: "Olha, ele escreve com a esquerda". Seu grande trunfo. A carta sob a manga. O plano B. Nas peladas de terça à noite adorava dar suas chuteiradas com a canhota. Pobre Piegas sonha dirigir um carro inglês, volante colocado à direita, marcha à esquerda.

360 graus. Está de pé de frente para a porta. Ele finalmente a abre e, ao invés da sala de sua casa, lá está a rua. A mesma em que Piegas veio caminhando. Entra para a rua? Entra? Tem apenas alguns segundos para pensar. As mãos suam. O coração dispara. A tênue linha que separa sua vida. Um divisor de águas. Final dos trilhos.

Mas Piegas fecha a porta. Dá alguns passos atrás. Afrouxa a gravata. Joga a pasta sobre o sofá. Diz para a mulher que a ama enquanto sorvem o vinho enfrente à lareira. O beijo demorado aquece a alma de Piegas. Não há mais silêncio, somente um agradável e interminável "New York, New York".


escrito por alisson villa

@ 17:58 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Julho 13, 2004


Dicionário Lúdico Brasileiro


Formiga - 1. O mesmo que átimo de segundo; 2. Piolhos da terra; 3. Animal de estimação que acompanha Deus em seu cooper matinal; 4. O nome dado à quina das estrelas; 5. Objeto de pesquisa socio-lírica de Manoel de Barros; 6.A fé em estado rastejante (Ex.: "Deus voltou a existir, mas as Igrejas continuavam vazias de formigas", em Restos de um charuto chamado saudade; de Vítor Freire).


escrito por alisson villa

@ 02:45 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Julho 08, 2004


As cores de Alice


Quando Alice saiu do banho com a toalha enrolada na altura de seu ondulado colo, meu olhar ganhou destino certo em meio a névoa trazida pelo vapor do chuveiro. Seus pés descalços atravessavam o chão com a delicadeza de quem carrega um objeto de inestimável valor. Em um andar de bêbado cruzar de pernas, o calcanhar era o primeiro a tocar o piso, seguido da parte externa do pé e na seqüência, tal qual onda quebrando na praia, os dedos desciam um a um, a começar pelo mindinho.

Apenas alguns bons segundos depois dos meus olhos dissecarem fixamente seus pés, percebi que Alice já se encontrava parada a me observar sentado na cama com o tronco inclinado para baixo. Tratei de percorrer com os olhos o caminho de volta até seu rosto, que guardava um sorriso sarcástico, como se estivesse se divertindo com a minha cara:

- Oi Caio - disse balançado os dedos da mão direita, o sorriso ainda presente. Para fugir de seu silencioso julgamento, resolvi fixar meus olhos em sua cintura.

Certa de que tal ato despertaria desejos de cheiros esverdeados, Alice despiu-se da toalha. Estava de frente para sua barriga repleta de pequenas gotas d'água a brilhar como estrelas em um céu no qual a lua apagou-se quando afoguei a língua em seu umbigo. Minha boca ganhou um frescor comparável às primeiras noites existentes na Terra. Talvez a exata noite do sétimo movimento de rotação, quando os ventos ainda traziam em seu corpo um leve ardido de hortelã.

Cambaleando um pouco, mãos jogadas para trás a procura do apoio da cama, Alice sentou-se ao meu lado. Colocando os pés sobre minhas pernas, entregou-me a toalha e disse com um tom firme de voz:

- Seque!

Obedeci prontamente sua ordem, mas largando a toalha, puxando sua perna até a altura de meu rosto e lambendo o peito de seu pé esquerdo com a língua que misturava saliva às gotas que recolhia pelo caminho. Os pequenos gemidos de Alice eram uma variada trilha sonora a me ditar o ritmo acertado para dançar sobre seus pés de pele alva e carne na medida perfeita para delicadas mordidas. E se o lento trip hop de seus gemidos não fossem aumento as batidas, eu provavelmente não chegaria com os lábios até a ponta de seus dedos, chupando-os em um frenético ritmo techno, que além de fazer suar minhas têmporas, também levantavam os quadris de Alice em uma dança que acompanhava a rave que transformara nosso encontro.

Quando larguei seu pé esquerdo sobre meu colo para agarrar o direito, Alice percebera que meu pau escapara pela relaxada abertura da cueca samba canção que eu trajava. A primeira atitude que ela tomou foi passear o pé levemente pelo meu pau, para logo em seguida esfrega-lo com veemência contra minha coxa. E durante o breve momento egoísta em que inclinei a cabeça para trás, Alice pediu em meio aos gemidos para que eu voltasse a chupar seus pés.

Posso jurar que nossa dança, além de trilha sonora, era acompanhada por um laborioso jogo de luzes que brotavam de todos os cantos. Ora vermelhas a ponto de arder os olhos e obrigá-los a permanecerem fechados, ora de um azul calmo no qual nossos corpos emaranhavam-se para planar sobre o quarto. Talvez fossem conseqüência da nova sensação causada por estarmos deitados cada qual com a cabeça voltada para um dos lados da cama e os pés desfilando por entre da coxa alheia. Quando um dos meus pés pairou na entrada da sua boceta, Alice afirmou ter visto uma luz roxa atravessar o chão e pousar sobre sua testa. Ao ameaçar penetrá-la com o pé, a luz roxa escorreu pelo seu rosto, dando início a uma onda de calor insuportavelmente deliciosa.

Na medida em que Alice rebolava para envolver meu pé, ela também controlava o calor, que desceu primeiro até seus seios, endurecendo de tal maneira seus dois bicos que por um segundo ela desejara a presença de outro homem para lambê-los e depois soprá-los. Em seguida, aumentando o ritmo do rebolado, o calor desceu até a barriga e de lá saltou finalmente para o ventre, invadindo Alice com um gozo que a fizera espreguiçar em tremuras de uma extremidade a outra do corpo.

Desfalecido sobre a cama durante vários minutos, começo a sentir o quarto ganhar um cheiro úmido. Abro os olhos e vejo Alice saindo do banho, toalha amarrada no colo ondulado, mas ao invés da fina névoa de vapor, agora são diversas cores que misturam-se aos seus lentos passos em minha direção.


escrito por alisson villa

@ 01:47 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Julho 05, 2004


O futuro anda mais rápido


Crianças eletrônicas brincam com seus revolveres à laser próximo à mais antiga avenida da monstrópole interativa. Disparam tiros nas luminárias de césio 2500 e nas velhas placas de neon que mal conseguem manterem-se acesas. Uma das crianças imprime direto de sua memória RAM uma antiquíssima foto da arcaica bicicleta. Com sua voz sintetizada de última geração, explica para os companheiros:

- Esse objeto já foi um dos brinquedos mais desejados pelas crianças do século 4 A.G. (Antes da Guerra).
- E para que servia? - perguntou o modelo mais avançado.
- Bem... não sei ao certo se é verdade, mas segundo documentos do museu interplanetário, consistia em subir nesse banco - apontava para a figura -, encaixar os pés nessas alavancas e girá-las em um movimento circular, criando assim uma força para movimentar as rodas.

Silêncio. Todos esperam apreensivos pelo desfecho da história. Uma delas não se aquenta e pergunta:

- E então? As rodas rodam e? E?
- ...e o objeto se locomove com a criança sentada nele.
- Ãn? Só isso? Quer dizer que a criança sentava em cima de um objeto, fazia um enorme esforço físico e ele apenas se locomovia? Ao menos voava?
- Não.
- Mas qual a diversão nisso? Essa civilização era mesmo primitiva! Gastavam as energias do corpo com um esforço repetitivo e achavam isso o máximo! Essa eu vou ter que contar lá na minha estufa! - e a risada só não foi geral porque nunca foram programados para realizarem tal ação considerada inútil.

E cada uma das crianças, após o término da absurda história da bicileta, pegaram seus respectivos controles de direção, abriram a porta do teletransportador e foram levados, sem qualquer esforço, para suas estufas protetoras de raios ultravioletas.


escrito por alisson villa

@ 21:38 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Julho 01, 2004



escrito por alisson villa

@ 09:27 caixa de correio: cartas


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