Segunda-feira, Maio 31, 2004


Não há nada nas mangas ou Como encantar seus olhos


Minha cerrada mão esquerda paira no ar com as costas equilibradas na altura dos seus olhos. A começar pelo indicador, os dedos brotam um a um, em lenta velocidade equivalente a um segundo dobrando de peso. Seus jabuticabentos olhos acompanham enviesados a articulada movimentação dos rebentos de magros e alongados corpos. "A que se presta a lentidão?" - esboça seu pensamento. "A um sonhado desejo de eternidade" - uma possível resposta, caso a pergunta vestisse voz.

Quando todos os dedos encontram-se erguidos, a mão gira em torno do pulso tal qual um lúdico balé, de modo que, ao terminar o contorno, a palma da mão mostra-se alva e ondulante para o seu ainda atento olhar. "Como tem linhas a tua palma" - surpreende-se em silêncio. "Como tem prismas a tua alma" - brinco de rimas.

Obrigado a entrar em instantâneo regime, o segundo retorna ao seu peso normal. Nessa condição, a mão parte em direção ao seu rosto, passando direto pela boca, em um dificílimo exercício de resistência para que não a pincele à Van Gogh - traços repicados, a boca ganhando imaginados tons amarelados de entardecer. "Irá retirar uma moeda do meu corpo" - aposta. "Retiraria um jardim inteiro" - também aposto.

A mão sobrevoa as bochechas, bandeirantiza-se para desbravar os cabelos e só então chegar ao seu destino. Instalada em sua orelha, os dedos inventam caminhos que obrigam os olhos a escurecer o mundo para o seu corpo. Mas quando você suspeita que a mágica chegara ao fim, me aproximo de sua outra orelha e, sem soltar os dedos da primeira, finalmente minha boca veste as palavras que antes pertenciam somente ao pensamento: "Sua pele é o futuro caminho de meus beijos". Em coreografados arrepios, todo o seu corpo responde: "Abracadabra".


escrito por alisson villa

@ 22:48 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Maio 28, 2004


Não tem preço ou é apenas mais uma outra coisa?



escrito por alisson villa

@ 00:30 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Maio 24, 2004


Fragmentos necessários I - Já é amor


Aí já é o amor. Você finge não saber, mas aí já é. O pensamento não cria outras formas além do seu caminhar, a maneira como prende os cabelos, suas opiniões sobre filmes que falam do amor assim como dito aqui. Entende? Você não pode negar que é amor, mesmo que ache outras palavras para apontar como esse sentimento usa roupas maltrapilhas. Minha querida, antes que sua boca termine o contorno de uma difamação, o amor troca de roupas e se oferece com o frescor de rara manhã de céu aberto. Portanto, abaixe essa armadura, destranque o sorriso e se for beber, que ao menos nos entrelacemos na possível busca de novos prazeres.


escrito por alisson villa

@ 22:04 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Maio 20, 2004


O Espelho


Este pequeno fio de barba esbranquiçada é o primeiro sinal a avisar que o corpo quer ser como meu pai. Mas é preciso mais que um fio branco para ser homem tão forte. É preciso mais que uma barba inteira. É necessário, no mínimo das possibilidades, que o coração também esteja alvo. Daqui não vejo o coração - memo que eu aba a gaganda batante.

Subo minhas mãos até a altura da sobrancelha. Brinco de soprar meus espichados dedos magros e é uma grama balançando ao vento. Presenteio-os com uma cor esverdeada, pois não há graça alguma em gramas cor de gente. Ao observar o movimento no espelho, as cores imaginadas somem. Penso, indignado com aquele roubo de verde dança média-anular-indica-polegüística-mínima, que por não ter suas próprias cores, o espelho quer mostrar que as nossas são sempre as mesmas. Mas volto ao peito e concluo: isto porque não há espelhos ao lado das aortas!

Resignado, colo as espalmadas mãos sobre a superfície do espelho e deixo registradas minhas digitais, pequenos caracóis de corpo único. Como único são os momentos em frente a este objeto, que não promove repetições, por mais ensaiados que meus movimentos possam ser. E mesmo que, no intuito de limitar o campo de ação, aproxime os olhos até os cílios varrerem seu corpo, sei que algum movimento guardado no fundo de minhas ondas marrons claras será capitado.

Definitivamente não há suspiro que renove. Que eternize. E me questiono, mãos entrelaçadas atrás da cabeça, cotovelos apontados para o alto - parecem asas arrepiadas, pude ver! - quais novas esquinas essa fábrica de fotografia em movimento ainda me apontará durante os anos?


escrito por alisson villa

@ 11:11 caixa de correio: cartas

Sábado, Maio 15, 2004


DNA


Meu pai chega ansioso em casa. Remexe em milhares de papeis que brotam de sua carteira na busca apressada pelo telefone de seu irmão.

- Preciso falar com seu tio Tunga.
- É aniversário dele? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Esqueci de ligar pra ele quando o Cruzeiro foi eliminado da Libertadores.


escrito por alisson villa

@ 19:42 caixa de correio: cartas

Quarta-feira, Maio 12, 2004


Usuários de barbas sofrem com as bolas de gomas de mascar*

O número de barbudos dobrou no último ano, mas a ameaça de ter a barba
devorada por gomas de mascar anda preocupando a classe


O uso de barbas dobrou no último ano. De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Barbas - INBRABAR - de cada dez brasileiros, quatro usam barbas. Em maio do ano passado, a proporção era de apenas dois para cada dez cidadãos. No entanto, junto com as barbas, cresce também o número de acidentes com gomas de mascar. Apenas na Grande Belo Horizonte estima-se que por mês pelo menos 18 pessoas buscam ajuda de barbeiros para retirar o objeto de seus pêlos faciais.

Trabalhando na área há 32 anos, o barbeiro Péricles Tesourim, 58 anos, diz não passar um mês sem socorrer alguém. "Na maioria dos casos tenho que raspar toda a barba", conta Tesourim, apresentando uma evidente expressão de tristeza, talvez por também ser usuário de vastos cavanhaques e costeletas. "Não entendo por que insistem em ruminar essas massas, uma tendência um tanto bovina, não?", questiona.

A assessora de marketing da Dentinhos, maior fabricante de gomas de mascar da América Latina, com sede no Suriname, Venderiana Maisy, explica que as empresas não podem ser culpadas por esses acidentes. "Os barbudos que praticam essa arriscada modalidade chicletal podem ser considerados verdadeiros suicidas a arremessar bombas contra si mesmos", pondera a assessora. As novas embalagens de Dentinhos Cereja e Dentinhos Carambola já apresentam a imagem estilizada de um rosto barbudo riscado com um xis. Essa medida foi colocada em prática apenas no Amapá, devido as leis locais.

No entanto, para aqueles que não desejam abrir mão nem dos cabelos na face, muito menos das divertidas bolas, existem algumas ações preventivas que podem ser tomadas. Mascador de gomas de mascar desde os 6 anos de idade, portador de barba desde os 17, o hoje piloto de dirigível Santos do Mont, 35, sugere: "Façam bolas para dentro da boca".

Mas a otorrinolaringologista Lara Ginty adverte sobre os perigos dessa técnica. "É tão arriscado quanto cozinhar e comer peixes venenosos, pois caso a bola desprenda-se dos dentes poderá congestionar a garganta", alerta a médica, que ainda deixa claro que passar alguns minutos sem respirar pode tornar a experiência da bola dentro da boca na última em toda vida do indivíduo. Entretanto, mostrando-se um tanto radical, Santos do Mont decreta: "Essa situação pode ser um pouco mais constrangedora que cortar a barba enchicletada. No entanto, são escolhas que a vida nos coloca, cabe a cada um decidir seu destino. Eu já sei o meu", diz, fazendo cara de mistério ao proclamar a última frase.

Influências barbudas

Na busca de uma explicação para o crescimento de usuários de barbas, um grupo de sociólogos da Faculdade de Ciências Peludas de Tocantins - FACIPELU - realizou uma pesquisa de campo com 100 pessoas de variadas faixas etárias e sociais. Ficou constato que, das 100 pessoas analisadas, 46 eram fãs de Los Hermanos - conhecida banda no meio jovem, autora do sucesso Ana Júlia e cujo integrantes ostentam frondosas barbas -; 21 eram filiados ao PT - partido do então presidente Lula e ministro da fazenda Palocci, ambos também barbudos -; 30 usavam camisetas com fotos de Che Guevara - o que já foi o bastante para os pesquisadores -; 2 não podiam se dar ao luxo de comprar lâminas de barbear; e o último jurava ser Jesus Cristo.

Crianças também sofrem

Não são apenas os adultos que sofrem com os perigos das gomas de mascar. Apesar de ainda não poderem deixar a barba crescer, as crianças são atingidas com voracidade por essas bolas. O alvo, neste caso, são os cabelos. "Quem nunca presenciou a cena de uma linda garotinha com cabelos repletos de chicletes?", pergunta a pedagoga Elicina Benz. De acordo com Benz, estudos realizados nas escolas públicas de São Paulo constataram que o grau de firmeza com que as gomas grudam nos cabelos é proporcional à brancura do vestido e a beleza dos cachinhos da vítima.

No caso dos garotos, a goma de mascar fica em segundo lugar na lista de acidentes com os cabelos. Encabeçando a lista, o maior vilão são os trenzinhos de autorama. De acordo com os dados da Associação dos Pais de Crianças com Cabelos Entrenzados - ASPACRICAENTRE -, as pequeninas e perigosas rodas a girar próximas aos cabelos dos garotos são uma arma fatal.

Estudos realizados pela associação demonstram que os nomes de garotos com maior probalidade de ter os cabelos agarrados pela Maria sem fumaça são: Glauco, Pedro e Sténio - este último, segundo a pesquisa, tem praticamente 100% de chances de sofrer o acidente. "Pergunte ao primeiro Sténio que cruzar na sua frente se isso já não lhe aconteceu", desafia a presidente da associação, Nóia Supris, que ainda confessou ter convencido a irmã a trocar o nome de seu futuro rebento, que se chamaria Sténio. "Ao menos meu futuro sobrinho terá menos chances de passar por essa desagradável situação", finaliza.

*Acho que ficou evidente que esta matéria é uma fantasiosa obra da minha cabeça desocupada. Portanto, não saiam por aí usando esses dados em suas importantes matérias sobre couros cabeludos.


escrito por alisson villa

@ 22:50 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Maio 10, 2004


Poema para rebater Vinícius

Que pouca vida a minha para suportar a sua
tua alma cerca a minha pele nua

E no desassossego deste poema vivo
(na lembrança branda de sua sinfonia),
despejo a palavra-mãe da intensa alegria:

Paixão! Paixão! Paixão! Posto que é chama!
Mas se deita à cama,
quem se opõe a aceitar faminto
essa livre e breve troca de infinitos?


escrito por alisson villa

@ 23:14 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Maio 07, 2004


Eu estou vivo. Só estou sem tempo pra mim. Onde compra mais? Tem da cor azul?


escrito por alisson villa

@ 12:12 caixa de correio: cartas


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