Quarta-feira, Abril 28, 2004


Brincadeira que rola por aí:


1. Pegue o livro mais próximo de você;
2. Abra o livro na página 23;
3. Ache a quinta frase;
4. Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.

"Nesses momentos nós nos divertíamos enormemente porque de toda parte os vizinhos se amontoavam na grade trocando impressões, e entre o solferino e o malva do entardecer surgia o perfil da forca e via-se meu tio mais moço, a cavalo, fixando no travessão o gancho e preparando o nó corrediço".
(Histórias de cronópios e de famas - Júlio Cortázar)


escrito por alisson villa

@ 21:54 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Abril 26, 2004


Kill Bill ou Ah, tá bom viu!


Kill Bill é mais um filme para você ir ao cinema e escutar alguns comentários do tipo: "Ah, falou, viu" ou "Ah, tá bom!". Quando é que as pessoas vão começar a entender que não apenas o cinema, como todo tipo de arte, não tem obrigação de retratar a vida exatamente como ela funciona na realidade? Pode até retratar, mas é obrigado.

Pois assistindo o novo filme de Tarantino recordei do dia que em que vi "O Tigre e o Dragão" e as pessoas também soltavam comentários de deboche quando os lutadores andavam sobre as árvores ou davam mágicas piruetas no ar. Engraçado que ninguém grita truco quando o Super Homem sai voando ou o Homem Aranha gruda na parede.

Pois bem. Kill Bill não é o melhor filme de Tarantino. E como você já deve ter lido nos periódicos, não se trata de uma produção que deseja passar algum tipo de mensagem para engrandecer a alma. É entretenimento puro. Porém, vale os caros reais gastos nos exorbitantes preços que os cinemas cobram. Principalmente porque o diretor faz mais uma vez um filme cheio de referências. Ou seja, um prato cheio para quem gosta de cinema.

Durante as lutas, o sangue esguicha exageradamente dos membros decepados, o que nos impede de levar todo aquele show muito a sério. Somente sendo muito chatinho para querer exigir um posicionamento esteticamente não agressivo deste filme. Você já sabe atravessar a rua, não sabe? Então pronto, afaste os seus filhos e assista tranqüilamente. Não é questão de alienar-se e aceitar a violência gratuita, mas sim de parar de ser nerd 24h e divertir-se um pouco. Não consegui me expressar corretamente, mas vamos lá.

Em uma das cenas mais violentas, a película fica preta e branca. Esse recurso era utilizado nos filmes de luta orientais para ameninar a cena e tornar-se mais acessível. Uma outra referência aos filmes do gênero é a roupa usada por Uma Thurman: igual a de Bruce Lee em seu filme "Jogo da Morte".

Você também vai encontrar o característico enredo não linear de Tarantino; um belíssimo trecho de animação; tomadas mirabolantes; música divertida; sonoplastia exageradamente marcada; diversão, diversão, diversão. Caso sua consciência doa por ter se divertido tanto sem ganhar nenhum tipo de conhecimento, leve um livro da Lispector para ler quando acabar a sessão.


escrito por alisson villa

@ 19:28 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Abril 19, 2004



escrito por alisson villa

@ 23:49 caixa de correio: cartas

Sábado, Abril 17, 2004


Sonhos


I

Era o asfalto de uma cinza cidade, mas à medida em que seus desnudos pés caminhavam sobre o terreno, ao invés de triturados por um áspero calor, eles eram agraciados com uma prazerosa sensação refrescante. Não tão frio que não possa brindar a língua, não tão ao ponto que não arrepie a nuca.

E para que esse clima não se tornasse tedioso, a cada cruzamento, um automóvel em alta velocidade atravessava o corpo dela, que em nenhum momento sangrava ou mesmo despetalava-se em um patético ato de filme B. Tal qual espectro fantasmagórico, o veículo perpassava seu gélido corpo, preenchendo-o novamente de calor.

Depois de muito caminhar, ela pára em frente a um homem de assustados olhos castanhos. Como o jogo de palavras da mulher passa uma tranqüila confiança, o homem resolve atravessá-la da mesma forma que os carros. Mas o encontro dos corpos é, em ângulos e gostos, completamente inverso ao dos carros e, ao invés do calor, é o frio que aumenta consideravelmente.

Agora ela caminha ao lado do homem. Explicou a ele que precisaria da sua ajuda para capturar carros suficientes que balanceassem o frio mais intenso. No entanto, ela esconde, como seu maior segredo, que o sorriso dele a esquenta mais que o impacto de qualquer carro que lhe atravessasse a vida.


escrito por alisson villa

@ 13:06 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Abril 12, 2004


Benjamim ou a volta das tosqueiras


Alguém aí já viu o filme Benjamim? Caso não tenha visto corra já para dentro do quarto, tranque a porta e jogue a chave pela janela. Dessa forma você pode manter sua integridade mental até passar a tentação de ver uma adaptação de um livro do Chico Buarque.

Honrando as tradições daqueles filmes nacionais toscos - que infelizmente ainda existem - a diretora Monique Gardenberg conseguiu enfiar no filme aparições de Zeca Pagodinho e Wando. O primeiro em um caricato showmício e o segundo em uma gincana. Não achei engraçado. Posso ser taxado de mal humorado, mas não achei mesmo. Na verdade, tenho certa repulsa por essa coisa de colocar um cantor ou um outro artista famoso em filmes como se tudo fosse casual. Não soa casual. Não soa. Aliás, isso me fez lembrar da antológica cena em que Caetano Veloso aparece, sem mais nem menos, cantando no terraço de um barraco de favela durante a última versão de Orfeu para o cinema.

Outro ponto fraco de Benjamim é a atuação de Cleo Pires. Em uma cena, a atriz chora e começa a resmungar algumas coisas - que minha memória seletiva já fez o grande favor de apagar. Chega a ser constrangedora a atuação nessa cena. Eu, no escuro do cinema, fiquei envergonhado pela atriz. Uma informação importante: Cleo Pires ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio, 2003. Quem era as outras concorrentes, meu deus? Paula Burlamarqui, por Viva Sapato? Então tem que ganhar! Tem mesmo! Dá o Oscar pra Cleo!


escrito por alisson villa

@ 12:34 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Abril 06, 2004


Encantamento


Desenho bonecos na areia,
mas a onda vem apagar.
Então lhe faço um poema
e envergonhada ela se esconde no mar.


escrito por alisson villa

@ 10:34 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Abril 05, 2004


A pergunta

Para Cristiano Diniz, Frederico Camilo, Sydney Júnior e Leandro Oliveira


Somos sarcásticos porque andamos juntos ou andamos juntos porque somos sarcásticos? Essa pergunta-cobra que engole o próprio rabo, tal qual aquele desenho na capa do disco Várias Variáveis, do Engenheiros do Hawaii - banda da qual o líder recebeu uma carta escrita pelo Cristiano - talvez não tenha resposta. Antes, deixe-me esclarecer que a palavra - sarcástico - presente na pergunta não é de um tom pastel-pejorativo. Ela está ali mais como vermelho-risada, azul-alegria, branco-lúdico.

Então fiquei pensando nessa pergunta, enquanto perambulava pela Savassi a observar aquelas moças bonitas passando pra lá e pra cá (a fábrica deve ser ali perto, não é mesmo?). Que obra do destino nos colocou frente a frente? Tudo bem que termos estudado juntos no Instituto de Educação - tirando o Kreator, que acredito piamente não ter estudado por lá devido a problemas geográficos: foi nascer em São Paulo - ajuda um pouco. Mas essa ainda não é uma resposta satisfatória, pois tromba de frente com o fato de sermos tão sarcasticamente parecidos. A isso, como se explica?

Penso que o marco inaugural dessa união, mesmo que não seja o primeiro dia que conversamos - pois se eu for analisar dessa maneira teria que considerar, por exemplo, o meu encontro com o Fred no jardim do Instituto, quando ele me mostrou o rolo de filmes que usaria para tirar fotos de todo mundo - foi o aniversário de 15 anos da Stefânia: horas e horas a fio rindo de um indivíduo que, por causa de sua excêntrica vestimenta, recebera de nós o carinhoso apelido de Rosado. Passaram-se uns 12 ou 13 anos desde aquelas primeiras risadas.

A bem da verdade, sempre fomos iguais às crianças, melhor, iguais aos bebes que gargalham e brincam com qualquer besteirinha que aparece em seus campos de visões: Sydney pegando uma carteira, levando-a até a orelha e fazendo de conta que falava ao telefone. Isso quando a telefonia celular começava a popularizar-se pelo Brasil.

Hoje todos vocês têm celulares. Menos eu. Não que isso seja algum tipo de vantagem, simplesmente sou o chato-bobão que não toma coca-cola, não come no Macdonald - apesar de ter sustentado essas instituições durante anos - e resiste às evoluções do celular. Mas eu, por exemplo, uso gravata! Eu e o Kreator - quem diria. E mais: estou especulando os preços dos pré-pagos.

É incrível como, mesmo escrevendo esta rasa lembrança - pois um texto contando e cantando todos os nossos casos teria proporções bíblicas -, continuo sem a resposta que desvenda o imã dessa união de pessoas inclinadas ao olhar caricatural do mundo. Pessoas que não engolem os cheiros, os gestos, as cores, sem antes mastigá-las e dizer que gosto tem. Pessoas, na minha opinião tendenciosamente carinhosa, saudáveis para o pulmão da máquina que fabrica felicidade.

E se ainda hoje formamos bandas estranhas e bebemos cachaça e nos emocionamos com casamentos secretos e carregamos no colo os filhos do outro e rimos das velhas histórias e torcemos para times alvi-negros e brigamos às vezes e vamos aos shows de nações e hermanos e trancamos matrículas e abrimos um sonho e ensinamos a guiar e escrevemos matérias e enfeitamos um corpo e compomos canções e libertamos um riso... enfim, se ainda hoje fazemos essas e outras tantas coisas, certamente a pergunta continuará sem resposta por mais sabe-se lá quantos longos anos de sarcástica amizade.

Ps.: E que venham as piadas sobre o texto!


escrito por alisson villa

@ 09:56 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Abril 01, 2004


Delicadas caixas ou Quando aprendi a ler poemas ou Vai sorrir?

À Chris O.


Na construção invisível dos seus poemas avisto,
com a dedilhada calma necessária,
delicadas caixinhas brancas:
ornamentações de rimas
cuja a sutileza - e somente ela -
propicia finais felizes a enfileiras palavras com o mesmo The End.

E os zigue-zague-zupts da construção roncando,
guardam inocentemente na noite dos versos
palavras que se dizem fel.

Ah! Mas se acreditamos à primeira vista
se creditamos sem averiguar a pista
se crescemos com olhar altista
não poderemos beber tudo que dito amargo fosse
sem saber que nas entrelinhas sua beleza é doce.

E no final, se fez a rima!
Amém.


escrito por alisson villa

@ 17:18 caixa de correio: cartas


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