Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004


Dicionário Lúdico Brasileiro X


Piolho - 1.Na ciência, diz-se da parte material da coceira; 2.Nome dado aos membros de associações anti-calvície; 3.O amigo de mais baixa estatura das criança em fase pré-escolar; 4.Pulgas sem mola; 5.Estado de total preenchimento da região bucal (Ex.: "Desfocada e de maré invertida, ela não proferia palavra, como quando em cambalhotas abarrotava a boca com vento gelado em um completo estado-piolho" - in: O branco e seus pecados, de Chris O.).

Saudade - 1.Nome da tia mais velha de uma família de oito irmãos; 2.Distância média entre seres inseparáveis; 3.A mais aguda nota do batimento cardíaco; 4.Diz-se do momento primeiro em que uma criança toma consciência de ter nascido da barriga da mãe; 5.O grito enlatado de alguém que passa dentro um carro em alta velocidade (Ex.: "A noite aberta sobre seus ombros era tão lenta quanto as saudades desconexas dos carros tristes que passavam pela avenida" - in: PQP e outras histórias, de André Gonçalves).


escrito por alisson villa

@ 14:54 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004


Três histórias e um poema


Parte IV - Perdas, batalhas e sonhos ou A menina de lá

A menina grita aqui dentro:
-Vai lamber a vida!
E lamberriso e lambechoro
e lambidéia do poema do Drummond
(O João terá ciúmes? Quem me dera! Quem me era?).

Mas a vida segue a correnteza firme do derreter,
esvaindo-se pelas mãos tal qual hemorragia,
durante o lúdico bailar dos dedos lambuzados
que com os olhos empinados
sonhamos lamber em espasmos de alegria.


escrito por alisson villa

@ 11:06 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004


Três histórias e um poema


Parte III - A nuvem

Enquanto retirava o pólen de um girassol corcunda, Zubinéia escutava curiosa a conversa de duas crianças:

-Minha mãe disse que as nuvens são feitas de algodão doce - olhando pro céu.
-Ai Alice e você acreditou? - com a mão na cintura.
-Sim, ué! Minha mãe nunca mente, ela diz que é muito feio mentir - apontando e balançando o indicador.
-Credo! Você só sabe falar da sua mãe - fazendo cara de cansada.
-Claro! Minha mãe é muito linda! - abrindo um sorriso de uma orelha a outra.

Zubinéia gargalhou muda, esqueceu um pouco o girassol e colocou-se a contabilizar as nuvens: uma bicicleta, duas bolas de futebol, um dinossauro engolindo dois filhotes de hipopótamo e três mulheres de saias rendadas chupando picolé de melancia.

Encantada com as múltiplas formas que as nuvens tomavam, decidiu dedicar uma visita àqueles seres branquinhos. À noite, quando chegasse na colméia, explicaria assustada e balançando as asinhas em um ritmo ofegante que um monstruoso marimbondo lhe roubara todo pólen de um ardo dia de trabalho.

Subindo, zunindo, sambando no vento,
Zubinéia abandona a sua pobre colméia.
Parada, cismada, em um bom comprimento,
a nuvem tem forma de centopéia.

-Bom dia dona centopéia - brinca a abelha ao aproximar-se da nuvem, que parecia soltar risinhos à medida que perdia sua forma de cem pés com o sopro do vento. Zubinéia não deu atenção, preferiu acreditar que eram os pios de algum pássaro aventureiro, assim como ela - que não era pássaro, mas sempre sonhava, confortavelmente adormecida em seu favo, ter pernas e bicos e ovos botar e fazer cocô nos casais de namorados entrelaçados nos cantos das praças.

Pousou finalmente no que ela cismou achar parecido com uma vaca. E mais uma vez - estava bem humorada e feliz - soltou muuuus pra cá, outros muuuus pra lá. Mas cessou a brincadeira quando, exercendo seu aguçado faro canino de abelha, sentiu um cheiro familiar. "Mu mu mu mu, digo, não pode ser!" - assustou-se o bichinho ao picar e comer um pedaço de nuvem. "Mas isto aqui é doce como brigadeiro, como leite condensado, como cajuzinho, COMO ALGODÃO DOCE!!!", gritou e gritou feliz, gritou e gritou eufórica.

Zubinéia não teve dúvida: equilibrados sobre suas asinhas, vários pedaços de nuvens seriam levados para suas colegas abelhas. Seriam, caso não começasse a escutar uns gemidos, seguidos de trovoados soluços e um choro chovendo no céu. A pobre nuvem, que a abelha jurava agora parecer com uma flor despetalada, estava triste e machucada.

Com seu ferrão cabisbaixo, Zubinéia encaminhou-se de volta para casa, sem carregar nenhum pedacinho de nuvem nas asinhas. E ao adentrar a colméia emoldurando uma verdadeira expressão de tristeza no rosto e com o corpo ensopado de lágrima, não pode dar continuidade à sua história de marimbondos assaltantes. Interrompida pelos berros da abelha rainha, Zubinéia foi acusada de ter passado todo dia escornada no parque de diversões, uma vez que era forte o seu bafo de algodão doce. Sem poder questionar uma só palavra, deitou-se calada em seu favo, ao lado das abelhinhas que assistiam a cena assustadas. Mas, na naquela noite, Zubinéia sonhou que era uma nuvem, que afirmava ter a forma de um pássaro.


escrito por alisson villa

@ 17:38 caixa de correio: cartas

Sábado, Fevereiro 14, 2004


Três histórias e um poema


Parte II - A mesa

Uma toalha roxa, de pano fino, que minha ignorância não permite nomear, cobria toda longa extensão retangular da mesa. E mesmo com o ponteiro das horas já contabilizando duas boas voltas por todo arredondado corpo do relógio, não havia sinal de nenhuma movimentação que anunciasse o fim daquela adocicada celebração. Entre onomatopéicos "unns" e "ahhs", doces das mais variadas raças e cores eram engolidos por inocentes boquinhas de idades que variavam entre 4 e 11 anos.

Da porta de entrada do ambiente onde se encontrava a mesa, os pais das crianças amontoavam-se nas pontas dos pés para tentar recuperar seus rebentos. Mas os cientistas, ainda que um pouco embaralhados com suas pranchetas de anotações, impediam a entrada de qualquer pessoa que interferisse no experimento. "Meus senhores e minhas senhoras, tenham calma! Já está provado teoricamente que nessa idade as crianças podem perfeitamente sobreviver à base de doces e mínimas doses d'água. Tenham compreensão com os fazeres empíricos da ciência" - gritavam os cientistas.

"Clotilde, me passa por favor mais um pedaço de pudim?" - era incrível como, ao serem expostas à uma farta quantidade de doces, as crianças tornaram-se mais sociáveis umas com as outras. Antes de ser levado até a mesa, Astolfo já havia puxado as trancinhas de Clotilde exatas quatro vezes. Agora, dirigia-se a ela com cuidadosa educação, uma vez que a menina era a responsável pela distribuição dos pudins.

Já o triste isolamento de Tonico só pôde ser explicado após exaustivas anotações nas pranchetas dos cientistas. Ficou evidenciado que ele não obtinha a atenção das outras crianças porque era o garoto responsável pelos doces de ameixa. Com esse fato constatou-se que iguarias feitas de ameixa não são valorizadas e que aqueles que as detém estão condenados ao ostracismo e à solidão.

Mas os cientistas, a caráter de experimento, incentivaram Tonico a invadir as bandejas alheias para abastecer-se dos doces que julgasse mais apetitosos. As outras crianças não cobriram-se de inércia e aquelas poucas horas ficaram gravadas nos anais da ciência como "A Guerra dos Doces". Os olhos roxos e os pontapés terminaram quando as crianças mais velhas - portanto, as mais fortes - contentaram-se com o que haviam angariado na batalha.

Com o passar dos anos, os pais desistiram de resgatar seus filhos. Desta forma, a mesa foi o lar daquelas crianças até que a última delas completou 12 anos e desfaleceu morta com um sorrisinho e uma baba doce escorrendo pela boca.


escrito por alisson villa

@ 13:41 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004


Três histórias e um poema


"...Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." - ela
falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da
abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de
meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida,
comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer
lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem
perdendo. Só a pura vida..."


(A menina de lá; in Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa)



Parte I - A lista

Primeiro perdi o sono; logo em seguida a vontade de recuperá-lo; perdi o conforto pela cama e levantei zumbi pela escuridão do quarto que me arrancava a visão; chutei a quina da cama e perdi sangue pelo corte que abriu em meu pé; perdi a paciência enquanto procurava mancando o interruptor da luz; chegando na cozinha, perdi a sede com um demorado gole d` água; perdendo, assim, o calor conquistado no abrigo de cobertores; vendo através da janela o céu pintado de azul, lamento pela noite perdida; mas também perco o sol nascendo; com certa resignação, adentro o banheiro e perco urina, hálito abafado de dia anterior, barba, roupa, fios de cabelo pelo ralo, sujeiras pelo corpo e telefonemas de pessoas que nunca vou saber quem eram; volto para a cozinha e perco a fome com repetidas mordidas em um dormido pão recheado com queijo; no caminho em direção ao quarto, estruturo um poema que me coloco apressado a anotar no verso da conta telefônica (Se teu sonho acorda meus desejos / lampejos de sorrisos adormecem em minha boca / e nesta engenharia de engrenagem rouca / não há pensamento que...), mas perco a palavra que em poucos instantes banhava de lirismo o meu verso; e junto a ela também parte - de malas e desapontado olhar voltado para trás - toda minha inspiração...


escrito por alisson villa

@ 23:58 caixa de correio: cartas

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004


O PROBLEMA DO MUNDO É A BARRIGA CHEIA


escrito por alisson villa

@ 23:52 caixa de correio: cartas


Glacial


Carrego na barriga
o vento da noite respirado ao seu lado.

E no amanhecer das horas,
são meus suspiros que refrescam o dia.


escrito por alisson villa

@ 08:50 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Fevereiro 10, 2004


Põe-sia


Então é isto que chamam poesia?

Uma
palavra
e
outra
por
cima?

Às vezes com alguma rima?
Exibindo eloqüentes estilos?
Ou no último verso dirá:
"Fugir da regra também v

a
l
e
!"


escrito por alisson villa

@ 17:41 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004




A minha homenagem à Hilda Hilst vem por meio de um editorial que escrevi no começo do ano passado para o falecido zine Nariz Online. A citação à autora de Ficções é mínima, mas vejo como a mais pertinente. Aliás, dedico este texto também ao editor do caderno de cultura do jornal O Globo, o jornalista Artur Xexéo, que ao ser entrevistado pela rádio CBN para fazer suas considerações sobre o falecimento de Hilst, a confundiu como autora de livros de auto-ajuda. Será que quando Chico Buarque passar dessa pra melhor vai rolar uma embaralhada com o Compadre Washington?

Editorial Nariz Online - 16/03/03


Já foram 237 as tentativas de retornar com a periodicidade semanal deste zine. Já escrevi vários editoriais dizendo que desta vez voltamos pra valer. Não vou mentir mais. Sinceramente, pode ser que você só volte a receber outra edição do Nariz Online daqui a 30 anos. Portanto, para você decidir se valerá a pena continuar como assinante deste zine daqui a tanto tempo, já adianto o que pode acontecer no Brasil nessa longínqua época:

- A presidente Sasha convida um dos integrantes do KLB para assumir o ministério da cultura - ele recusa.

- Jota Quest faz um acústico para a MTV, mas a Globo embarga o lançamento alegando direitos de imagens exclusivos sobre a banda.

- Atônitos com sua longevidade, ACM se vê obrigado a confessar aos cidadãos e colegas de senado de que ele é na verdade um alienígena e viverá no mínimo mais 300 anos.

- Hilda Hilst é reconhecida como uma das grandes escritoras brasileiras e seus livros vendem como água. Mas nessa época, seus restos mortais já foram devorados por uma legião de vermes (como se isso já não acontecesse hoje).

- Médium psicografa mensagem de Caetano: "A guerra atômica é linda".

- Filme brasileiro perde mais uma vez a chance de ganhar seu primeiro Oscar, apesar de ser considerado uma obra prima da sétima arte. Os membros da academia americana de cinema justificam a decisão dizendo não apreciarem os filmes do sul da África.

Tenho mais previsões, mas acho que já foi o bastante. Leiam os textos dos colunistas do Nariz Online e mandem suas preciosas colaborações.

Abraços,

Alisson Villa


escrito por alisson villa

@ 08:41 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Fevereiro 03, 2004


Metamorfose


No fim da rua, um cachorro encabulava o silêncio ao uivar de maneira imponente para a lua. Na outra esquina, sob a luz do poste que piscava entre a vida e a morte, um homem sentado no meio fio raspava a sola do sapato pelo asfalto.

Como o cachorro libertou o silêncio por um instante para lamber a palma da sua mão, o gato que se escondia atrás da lata de lixo aproveitou o momento de distração canina para fugir como flecha em direção ao alvo. O homem, que abaixou a cabeça para arrancar com os dentes umas pulgas irritantes que dançavam pela sua pata, foi alvo das desgovernadas risadas de dois bêbados que tropeçavam pela rua.

Ao terminar de bater as espalmadas mãos uma na outra, o cachorro presumiu que o homem sentado do lado oposto ao seu, estava por demais triste, uma vez que ele não balançava seu adormecido rabo. Mas aquela imagem desapareceu da frente dos olhos do cão, pois a luz que outrora piscava moribunda, esmoreceu-se de vez.

Do breu que agora o cobria, o homem observou o cachorro cruzar as pernas como quem espera ansioso o dia nascer. E ao cão restou apenas escutar o uivo melancólico do homem, quando uma estrela cadente rasgou apressada o céu meloso da madrugada.


escrito por alisson villa

@ 20:55 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004




Vivemos em uma lata de lixo, que com um bondoso eufemismo resolvemos denominá-la Planeta Terra. E somente dentro de um ambiente sujo e propício a doenças como esse, podemos nos deparar com a indicação do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ao Prêmio Nobel da Paz de 2004.

"É incrível que eu tenha vencido. Concorria contra a paz, prosperidade e boa administração." - George W. Bush, 14 de Junho de 2001, em conversa com o Primeiro Ministro da Suécia sem saber que uma câmera de TV continuava gravando ao vivo.


escrito por alisson villa

@ 08:40 caixa de correio: cartas


[subir]

:: template criado por christiane o. ::


Powered by Blogger.


walrus on line
Dating