Sexta-feira, Janeiro 30, 2004


Chorando pra cima


A Mulher de Cabeça Inclinada Para Baixo sonhava em chorar para cima. Tentando realizar seu desejo, resolveu plantar bananeira. Mas o comentário de todos que passavam por perto era sempre o mesmo: "Que bela bananeira! Pena chorar para baixo".

Desolada, a mulher continuou a derramar litros e litros, inundando tudo à sua volta. No entanto, quando percebeu que estava coberta até o último fio de cabelo, começou a chorar de felicidade, até morrer afogada em suas próprias lágrimas, que só subiam, subiam...


escrito por alisson villa

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Quarta-feira, Janeiro 28, 2004


Como a indicação de Cidade de Deus ao Oscar
pode ajudar o cinema nacional


Fiquei tão entusiasmado quando soube que Cidade de Deus concorreria em 4 categorias do Oscar (Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Adaptado) que parecia que eu fazia parte da produção. Mas meu entusiasmo não tem nada a ver com a possibilidade (remota como a do Jota Quest lançar um disco bom) da película brasileira levantar uma daquelas estatuetas.

Na verdade, uma vez que caiu-se no senso comum de que a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é a que agracia oficialmente os melhores filmes - o que não é verdade, pois ela é tendenciosamente americana, assim como sou tendenciosamente atleticano e sempre dou um jeito de citar meu time - é muito bom ter o filme de Fernando Meirelles concorrendo quando se contabiliza os outros benefícios que isso trará para o cinema brasileiro. Veja quais seriam esses benefícios, além de algumas divagações:

1-Os donos do dinheiro em geral terão menos pé atras para apostarem na produção de filmes que fogem ao menos um pouco do convencional de, por exemplo, um Deus interpretado por outro se não menos Antônio Fagundes.

2-Ajuda a enterrar um pouco a estigma de que falta de dinheiro é desculpa para produção mal feita. Dinheiro ajuda, é claro, mas se ele não existe meu caro amigo, por que não seguir os conselhos do pai da matéria, Fernando Meirelles, que deu a seguinte resposta ao ser indagado sobre o baixo orçamento do seu filme (R$8,3 milhões) em relação às produções americanas: "Em Hollywood, há uns padrões de roteiro, de ator, e todos seguem, querem escolher as carinhas certas que fazem sucesso. Mas a gente vem de um lugar em que não há essa cultura. E por a gente não saber fazer o cinema como eles, acabou fazendo um que tem muita invenção do ponto de vista deles. Como não temos essa cultura do cinema de mercado, acabamos contando uma história fora do formato que eles conhecem. Tudo isso tem um certo frescor. Não é uma responsabilidade minha. Em cada área, a gente tem um pouco de invenção" (declaração dada à Folha Online - 27/01/04).

3-As indicações vêem apontar que aqueles artistas que sempre procuram inovar se dão bem uma hora ou outra. Quando ainda jovem participante da produtora Olhar Eletrônico, Meirelles criou junto com Marcelo Tas o irreverente repórter Ernesto Varela. Ou seja, aquele seu colega que vive borbulhando idéias tão esquisitas quanto ele pode ser um gênio próximo de ser descoberto. Ajude desde cedo colaborando com rodadas de cervejas em bares ou massagens.

4-Serviu para mostrar que nenhum jornalista sabe o plural de Oscar, uma vez que em todas os jornais só foi usada a expressão "Teve 4 indicações ao Oscar", ou "Concorre em 4 categorias do Oscar". Tomara que aprendam até o dia da premiação caso tenham que anunciar que Cidade de Deus ganhou 4, 3 ou 2 Oscars.

5-Se por um acaso Cidade de Deus ganhar alguma estatueta (das quatro, concorre em três categorias ao lado de Senhor das Arruelas) veremos, assim que o novo disco do Jota Quest for lançado, que nem todas as analogias são perfeitas.


escrito por alisson villa

@ 01:55 caixa de correio: cartas

Terça-feira, Janeiro 27, 2004


Cinema nacional ainda é, em grande parte, sofrível


Sofrível. Na falta de outra palavra mais seca, talvez essa seja a melhor definição para os filmes exibidos no segundo dia do 7º Festival de Cinema de Tiradentes, que acontece de 23 a 31 de janeiro. Em uma saga ingênua em busca de boa sétima arte nacional, lá fui eu assistir à novas produções.

A tarde de sábado começou com uma adoçada ilusão, quando adentrei o teatro do centro cultural da cidade para ver os vídeos do divertido Ernesto Varela, personagem criado por Marcelo Tas, que ainda contava com a companhia do câmera Valdeci, interpretado pelo até então desconhecido Fernando Meirelles.

Realizados por volta de 1984, os vídeos traziam Varela, um repórter que despeja perguntas nada convencionais à personalidades políticas, esportivas e anônimas: "Qual será a sua próxima jogada", para o ex-presidente da CBF Nabi Abi Chedi; ou ainda "É verdade, Sr. Maluf, que o senhor é um ladrão?", soltou ao político Paulo Maluf após uma coletiva em que Varela levou um bolo de aniversário e puxou um parabéns pra você em homenagem ao ex-prefeito de São Paulo.

Passados os vídeos e recolhidas as babas dos estudantes de jornalismo presentes (que futuramente escreverão em jornais quadrados leads quadrados sobre o trânsito quadrado ou o obtuso último show do Skank), chegou a noite trazendo pelas mãos duas novíssimas produções cinematográficas do Brasil.

No Cine-Praça, instalado no simpático Largo das Fôrras, as primeiras imagens de Apolônio Brasil já traziam uma constrangedora cena de Marco Nanini dublando uma canção ao piano, na mais tosca versão playback (naquele momento dei valor ao "quem sabe faz ao vivo" do Faustão). Daí em diante, o filme dirigido por Hugo Carvana segue uma mescla de musical mal acabado com humor pastelão de quinta. No entanto, o diretor não contava que o ultra moderno equipamento de projeção instalado pela organização da mostra, era um dos modelos equipados com dispositivo de crítica instantânea. Não deu em outra: o equipamento se auto destruiu antes que a exibição acabasse. Crianças choraram, alguns saíram correndo antes de saber que o problema era irreversível, Carvana se recusou a emprestar a fita para o filme ser exibido no domingo e eu juro ter escutado alguém gritar do meio da platéia "Vai trabalhar, Vagabundo".

Enquanto caminhava em direção ao Cine-Tenda, localizado no Largo da Rodoviária, para ver "Viva Sapato", de Luis Carlos Lacerda, divagava se filmes horríveis produzidos com subsídios do governo também não podem ser enquadrados como crime de mal uso do dinheiro público. Desisto de levar a idéia à frente quando contabilizo se teriam presídios suficientes para os cineastas brasileiros.

Juro ter oferecido a outra retina para que a película de Lacerda, conhecido como Bigode, ao invés de um cisco, me desse um sopro. Deu-me uma gangue de poeira, isso sim! O roteiro é fraco e não aprofunda-se nem mesmo na história da protagonista, uma cubana que decide largar sua vida de casada no interior para montar um restaurante em Havana. Para tanto, a tia brasileira da moça lhe envia dinheiro escondido clandestinamente no salto de um sapato. Mas a moça se desfaz do sapato e só depois fica sabendo do dinheiro, o que da início à busca pelo calçado e ao infame trocadilho do título com Viva Zapata.

É preciso destacar também a primorosa atuação de duas atrizes nacionais no filme: Paula Burlamaqui faz papel de pelada, na qual distribui nus gratuitos para todo o lado, lembrando uma época em que cinema nacional era sinônimo de filme pornô. E Isadora Ribeiro, que apesar de ser uma das poucas que falavam português ao invés de castelhano no filme, teve legendas em português acompanhando todas as suas falas, em um das poucos momentos de lucidez do diretor para que o filme não ficasse incompreensível durante as cenas da atriz.

Esse foi apenas um dia da 7º Mostra de Cinema de Tiradentes, portanto não deve ser tomado como um todo da mostra. É preciso apenas alertar às pessoas que nem 10% da produção cinematográfica brasileira é feita de Cidades de Deuses, Centrais do Brasil ou Homens que Copiavam. Ainda há muita carência, principalmente de bons roteiros e preocupações estéticas. Nós ainda chegaremos lá, quando cairmos na real que cinema é Beethoven, Picasso e Drummond.


escrito por alisson villa

@ 01:30 caixa de correio: cartas

Quinta-feira, Janeiro 22, 2004


Poema de lá


Escrevo daqui do fundo
tão molhado
tão molhado
tão molhado
tão molhado
tão molhado
que a tinta da caneta,
veja bem,
faz piruetas bem de frente ao meu nariz!


escrito por alisson villa

@ 18:52 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Janeiro 19, 2004


Curso on-line de beijos de borboleta


Módulo IV e Final - Cuidados, dicas úteis e curiosidades:

Não recomendamos a aplicação do beijo de borboleta na boca, pois as cócegas provocadas por tal ato podem irritar o seu parceiro, o que acarretaria em um efeito contrário dos objetivos primeiros dos beijos borboléuticos que são: ocupação indiscriminada de corações; garantia do fim do sexo, sorvete e cinema solitário; proclamação de amizade eterna; dentre outras coisas de formato redondo e pintas laranjas.

Esses beijinhos foram feitos para momentos especiais e não devem cair na banalização. Portanto, não exagere na dose, não levante bandeiras e assim nada será mais esplendoroso que a surpresa de asas abrindo desconcertantes no escurinho de um quarto.

Beijos de borboleta dados em bochechas com maquiagem podem causar danos a saúde. Se ingerido, tome bastante leite e procure ajuda do seu lepidopterologista.

Não há uma regra para o tempo em que se deve dar um beijo de borboleta. O recorde mundial é do australiano Tom Smith Lovet, que beijou sua parceira durante 5 dias sem pestanejar (convenhamos, foi um trocadilho ótimo!).

Se você mandar um beijo de borboleta à distancia, corre o risco dele parar em outra rede-bochecha, o que pode ser o fim de um namoro, mas também o começo de um outro romance, pois com esses beijos só ficam sós os carecas de sorrisos ou os alérgicos a pólen.


escrito por alisson villa

@ 21:51 caixa de correio: cartas

Sábado, Janeiro 17, 2004


Curso on-line de beijos de borboleta


Módulo III - Variações japonesas:

Contrariando toda a tradição de sua sabedoria milenar, uma corrente de especialistas em beijos de borboleta no Japão foi a que dessa vez inovou. Eles adicionaram algumas variações ao tradicional beijo de borboleta originário, segundo o Almanaque Abril de 1989, no sul da Tailândia.

Na versão japonesa é permitido, por exemplo, que ao final da sessão de beijinhos borboléuticos, uma pessoa morda com o olho a bochechada do outro. Imagine-se dando uma mordida, só que com os olhos. Penso que qualquer que seja a maneira que você imagine a situação será estranho.

Pois essa estranheza incomodou de tal maneira os tradicionais beijadores de borboleta japoneses que em 1978, na província de Taguanaua, eles se revoltaram contra os vanguardistas que insistiam em introduzir a mordida de olho. Esse acontecimento ficou conhecido como "A Batalha de Asas Coloridas" - provavelmente uma referencia às inocentes borboletas. O imperador japonês foi obrigado a intervir, evitando que aquilo se transformasse em uma revolta nacional. Para resolver a celeuma, a província foi dividida em duas: Baroque (que em português significa "aqueles que não mordem") e Tanakaia (que significa "o olho que morde"). Pelos nomes vocês podem concluir de que lado foram beijar borboleuticamente cada uma das correntes.


escrito por alisson villa

@ 15:10 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Janeiro 12, 2004


Curso on-line de beijos de borboleta


Módulo II - Técnica, melhor com ela, pior sem ela:

Conquistado o parceiro, podemos partir para a teoria. Para realizar o beijo de borboleta você precisará essencialmente de um olho, cílios vastos, pálpebras ágeis e uma bochecha (outros acessórios são bem vindos, mas recomendados apenas para praticantes experientes. Ver capítulo "Fetiches de Asas" para melhor compreensão).

Artigo Primeiro - Sendo você a borboleta beijoqueira:
Objetos essenciais reunidos, primeiro aproxime um de seus olhos da bochecha do parceiro a ser agraciado. Segundo, encoste levemente os cílios na bochecha dele. Terceiro, comece a mexer as pálpebras rapidamente de modo a varrer carinhosamente a bochecha.
Observação importante: o seu rosto deve ficar parado e o movimento das pálpebras deve concentrar-se em um mesmo ponto da bochecha.

Artigo Segundo - Sendo você a bochecha ovacionada por uma boa borboletada:
Se em dia qualquer da vida você perceber que está prestes a receber um beijo de borboleta, tente afastar o nervosismo para não atrapalhar o prazer de um prazerosa borboletada. Mantenha o rosto firme e deixe que tudo corra naturalmente. Comportando-se bem, talvez sua fama de bom de bochecha se espalhe como pólen ao vento.


escrito por alisson villa

@ 22:40 caixa de correio: cartas

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004


Curso on-line de beijos de borboleta


Módulo I - Arrume um parceiro:

Assim como o pingue-pongue, o tango, o sexo oral e as lutas de sumo sumô, o beijo de borboleta não pode ser praticado sozinho. É preciso, portanto, arrumar um outro ser humano para ser dado o beijo. O sexo da pessoa a ser beijada borboleuticamente fica a critério das preferências individuais de cada um, pois o beijo de borboleta não trás em seus genes a torneira da ignorância.

Para atrair um parceiro, existem vários métodos. Cito aqui alguns exemplos: saias curtas; frases de efeito tais como "acabei de ler Paixão Segundo GH, livrinho superficial, não?"; ou ainda a covarde, porém muito eficiente, utilização de álcool e outros alteradores da mente (para melhor desempenho, recomendamos o curso "Como arrumar um parceiro em tempos de seca", com início programado para Março).


escrito por alisson villa

@ 10:02 caixa de correio: cartas

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004


Fantasiei história úmida


Vendo você chorar
fantasiei:
São minhas essas suas lágrimas.
E no segredo de mãos em conchas,
capturei uma a uma durante seus vôos suicidas ao chão;
onde a correnteza de passos calçados levaria essa minha sua
história
por um despercebido caminho de concreta pele
úmida.


escrito por alisson villa

@ 22:26 caixa de correio: cartas


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