Domingo, Novembro 30, 2003
Sentou-se na mesa. O bar estava fechado há dois anos. Assim mesmo lhe serviram uma cerveja. Deu um gole. Cuspiu a bebida no chão. Estava quente. Não havia garçom para reclamar, assim como não havia cerveja. Para seu alivio existia chão, mas o que cuspira era sangue. Fingiu um sorriso, pois não sabia que em suas veias já cortadas corria tal líquido. Feliz, sapateou sobre a poça vermelha. Como não calçava sapatos, teve nojo ao perceber que sujava os pés com o sangue de um rato morto. Bem desconfiava que o sangue não poderia ser seu. Pensou em fritar o animal. Não usou o fogão que atinava existir na cozinha daquele estabelecimento e serviu o rato ainda quente. Legumes acompanhavam, fazendo-o desistir do prato, tamanha era sua repugnância por cenouras. Sorte do rato que pode voltar a sangrar sossegado no chão.
- Devo, então, ignorar o que dizem? - perguntou ao amigo que não sentava à sua frente, o que, de certa forma, era um alívio, pois na verdade nada havia dito.
- Pelo contrário. É preciso seguir à risca todas as recomendações alheias.
A resposta do amigo o irritou consideravelmente, pois nenhum conselho pode ser seguido quando lhe faltam as duas orelhas para escutá-lo. Achou oportuno, portanto, voltar à solidão. Condição essa, aliás, que nunca o abandonou.
Pediu outra cerveja usando a linguagem dos surdos-mudos, pois a língua, apesar de girar com certa destreza dentro da boca, não executava som algum. Nada reverberava, nem na linguagem de outros animais como os mugidos, os cacarejos ou as gralhadas, quanto menos na dos hominídeos. Para seu suspiroso alívio, a comunicação surda-muda funcionara e uma cerveja, dessa vez gelada, foi servida em sua mesa.
No entanto, os copos estavam todos despedaçados em pequenos cacos. Não teve dúvidas: embebeu-os de cerveja e colocou boca adentro. Não pôde mastigá-los, pois os dentes despencaram em seu último sonho, fato esse que levou seu analista a colocar a mão no queixo e perguntar em tom sombrio se ele pensava muito na morte. Engoliu, portanto, os cacos inteiros, pensando no dinheiro que estava economizando em tira-gostos.
Se continuasse a poupar nesse ritmo, logo teria algum trocado no bolso, ao invés de pequenos papeis em branco. Papeis esses utilizados para anotar poesias que sempre esquecia, pois as que lembrava não precisavam ser anotadas. Certa vez, ao lembrar de um poema não anotado, colocou-se a rasgar rapidamente o branco papel correspondente à não anotação. Nele não estava escrito:
Na certa não são todos
(poetas tolos)
a matar a mãe numa tarde ensolarada.
Tantos tontos preferem, sonsos,
o lugar comum de uma manhã nublada.
Finalmente pediu a conta. A boca amargou repentinamente, como se descobrisse em farta mordida uma trágica folha de boldo em meio a um pedaço de lasanha. A quantia descriminada era muito alta. Não saberia como pagar. Primeiro porque não existia conta. Segundo porque não havia para quem pagar. Terceiro porque ainda não economizara o bastante comendo cacos de vidros. E quarto porque, na verdade, não consumira nada.
Decidiu deixar alguns papeis em branco sobre a mesa, na esperança de que um lírico garçom lembrasse os versos, rasgando a celulose como pagamento. Levantou-se, então, da cadeira que nunca havia sentado. Caminhou alguns passos até a porta escutando declamarem ao fundo poemas sobre vasos floridos. Não poderiam serem os seus, pois detestava os parnasianos. Por fim, cruzou a porta de saída, entrando novamente no mesmo bar.
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alisson villa
@ 12:43
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Quarta-feira, Novembro 26, 2003
O Apontador
Desconsolado, no canto menos visitado da mesa, o apontador descansa sem estar cansado. Já viu morrer a caneta tinteiro, agora assiste os agonizantes últimos dias do lápis. Não quer pensar muito no fato de que a morte do lápis é também o seu passaporte para estado de pedra-no-alto-da-montanha. Passa as mãos na já esbranquiçada barba e pensa em revoluções, apontadores de todo o mundo atacando canetas esferográficas, sangue azul escorrendo pela alienada madeira da mesa. Ou quem sabe algo mais grandioso, como uma investida contra os ainda jovens mouses de computadores. Mas rapidamente entedia-se, adormece, está velho.
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alisson villa
@ 11:05
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Quinta-feira, Novembro 20, 2003
- Sabe Carlos... acho que o nosso relacionamento não está indo muito bem.
- Quem não está indo muito bem é você. Eu continuo carinhoso, companheiro, atencioso, apaixonado - e Carlos desfila uma enciclopédica lista de adjetivos sobre os seus sentimentos por Heloísa. Ela, em disciplinada sincronia, abria um bocejo a cada três palavras proferidas pelo namorado. Mas Carlos prosseguiu:
- Eu sei qual é o problema. O problema é que desde o começo eu a coloco num altar e você só sabe me retribuir com sorrisinhos forçados.
- Pensando bem, até que você tem razão - e descaradamente desanimada, a mulher continua seu capenga discurso de fim de namoro - Mas a culpa não é minha. Sentimento a gente não controla, não tem como escolher de quem vamos gostar, quanto vamos gostar...
Com as lágrimas passeando pelo rosto de Carlos como pequenas formigas gordas, nada que Heloísa falava parecia chegar aos ouvidos do namorado. Ela, por sua vez, desejava terminar rapidamente com aquela situação que a deixava claramente entediada:
- É melhor a gente não se encontrar mais.
Carlos era uma girafa, nada dizia. Mas quando Heloísa soltou mais um de seus bocejos, ele enfiou a mão dentro da escancarada boca da namorada. Assustada, a mulher estremecia-se na medida em que Carlos enfiava mais profundamente o braço pela sua garganta. Passados alguns segundos, Carlos retira a mão lá de dentro e, eufórico, começa a dar berros de felicidade.
- E agora senhorita? O que vai fazer a respeito?
Embasbacada, Heloísa não podia acreditar que via seu coração pulsando nas mãos de Carlos, que sorria como uma criança que acabara de ser presenteada com uma bicicleta no Natal.
- Temos que mandar convites, preparar o bufe, reservar a igreja. Não fica aí parada, mãos à obra mulher! - cabisbaixa, Heloísa segue ao lado de Carlos, pois nada mais poderia fazer, afinal, seus sentimentos foram completamente conquistados.
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alisson villa
@ 09:29
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Quarta-feira, Novembro 19, 2003
Pauta é uma pata com um urubu mal enterrado no meio.
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alisson villa
@ 12:59
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Terça-feira, Novembro 18, 2003
-Vendo Coração modelo 74. Pouquíssimo uso. Tratar com Clara Ince Sível Ferreira. Email: ince_sivel@malancolia.com
-Pulmão ano 46. Pequeno problema no arranque e baixa de desempenho nas subidas. Tratar com Philip Pereira Morris no telefone 0800-7037033 ou no site www.inca.gov.br/tabagismo.
- Oportunidade única. Olhos cor de mar revoltado. Com tendências a ver o lado belo das coisas tortas. Tratar com Nanna diretamente no site www.lanlande.blogger.com.br
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alisson villa
@ 11:49
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Segunda-feira, Novembro 17, 2003
Ou você me ama ou você me ama,
na simples liberdade de não poder escolher.
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alisson villa
@ 11:44
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Sábado, Novembro 15, 2003
Um texto bem velhinho, que escrevi na época do fanzine Nariz Online:
Cena 1 - O País:
O presidente de um país de terceiro mundo (em desenvolvimento? Hahahaha!!!), com altos índices de desigualdade social, educação deficitária, sistema de saúde precário, dentre outras mazelas que conhecemos com uma prática empírica de dar inveja à Francis Bacon. No entanto, sabendo que somente com o desenvolvimento intelectual de um povo é possível acabar com uma situação social decadente, você resolve criar leis que incentivam o fazer artístico.
Corta ¿ Volta texto para a mais crua realidade:
Nelson Pereira dos Santos. Cineasta brasileiro. Diretor de filmes importantes como Memórias do Cárcere e Vidas Secas. 10%. é o que conseguiu até agora do um milhão de reais necessários para rodar um documentário sobre Sérgio Buarque de Holanda. Historiador, sociólogo e crítico literário, Sérgio Buarque de Holanda forma com Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. a tríade de pensadores responsáveis pelo que hoje chamamos de identidade nacional.
Cena 2 - O mundo da fantasia:
Patrimônio de 300 milhões de reais. Faturamento de 33 milhões de reais por ano. Salário de 2,2 milhões por mês. Esses são os números que colorem a conta bancária de Maria das Graças Xuxa Meneghel. Apresentadora de programas infantis, ex-namorada de Pelé e Senna, protagonista da mais valiosa edição da revista Playboy, Xuxa recebeu R$4 milhões de reais do Ministério da Cultura para rodar o filme Xuxa e os Duendes. Em apenas dois meses em exibição, o filme arrecadou 4 milhões e 350 mil reais.
Corta - Realidade arranca cabeça da cultura e caminha vermelha de sangue pela rua:
Quem somos nós? De onde viemos? "Mamãe, eu acredito em duendes". O que é etnia? Como é minha nação? "Todo mundo tá feliz! Todo mundo quer cantar!".
Cena 3 - Um final feliz:
Sasha cresce, pinta o cabelo de verde e monta uma banda punk chamada Suco Gástrico.
Casa com Bill Gates e vai morar em Miami depois de escapar de população enfurecida que tenta linchá-la. Nelson Pereira morre antes de finalizar documentário sobre a Revolução Cultural Brasileira (Recubra), que teve seu ápice em 2004 com tomada do congresso brasileiro pelo povo e depredação de todas as redações de revistas de fofoca.
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alisson villa
@ 13:20
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Quinta-feira, Novembro 13, 2003
Cambalhotas - 1.Nome do movimento revolucionário das formigas em 1977 no qual foi exigido mais açucares às espécies operárias; 2.Diz-se da corrente de ar que levanta a saia das mulheres; 3.O mesmo que cochichar; 4.Dança folclórica originária do instinto país Alegrette; 5.Ato de beber vento (Ex.: "Tantas cambalhotas ele fez, que um passarinho quis lhe voar por dentro", in: Longe e in: Longe e Outras Distâncias, de Beta).
Chicletes - 1.Incubadora de vento; 2.Nome dado aos estalos dos móveis durante a madrugada; 3.Estrelas coloridas das ruas ou passeios; 4.Arma terrorista contra lindos cabelos encaracolados de garotinhas de vestido; 5.Período de tempo que compreende o início dos namoros (Ex.: "Paixão como aquela nunca se fez saber, uma vez que o chicletes do casal esticava-se por mais de meio século", in: Mais que bom, de Pierre Menezes).
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alisson villa
@ 09:37
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Quinta-feira, Novembro 06, 2003
ou O título ninguém lê ou Pior sem eles ou Trajando terno e gravata
I
Quando chove
qualquer canção me comove.
II
Tenho um baú de saudades
desabito muitas cidades...
III
O infinito,
esse egocêntrico mito
IV
O poema acabou,
o poeta se ferrou
V
Sozinha, a rede balança
Parece que com vento ela dança!
VI
Parecem poemas do Quintana
Xiii! Ainda preciso comer muita banana!
VII
Parecem poemas do Leminsk
Só se eu bebesse uma garrafa de whisky
VIII
Vejo a rua lá fora
Para onde me mandará embora?
IX
Cansado, pedi demissão
da labuta rotineira do seu coração
X
Tudo tão premeditado
como a conseqüência de um velho ditado
XI
Onze poemas se escreveu
até que a inspiração morreu
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alisson villa
@ 12:48
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Segunda-feira, Novembro 03, 2003
Sexo - 1.Inundar-se para dentro; 2.Coletanea de suspiros; 3.A região mais profunda e silenciosa dos rios; 4.O mesmo que ter nos olhos asas para o horizonte; 5.Ruminar um poema (Ex.: "E no dedilhar encantado dos versos de Drummond, o sexo surgia para eles como uma música que não quer se deixar levar pelo esquecimento", in: Açucares e Risos, de Laura Carneiro).
Sorvete - 1.Sorriso da criança quando ganha brinquedo; 2.Lado interior das almofadas; 3.Saudação de boa sorte no jogo de amarelinha; 4.Intervalo entre declarações de amor (Ex.: "Fechou os olhos e torceu temerosa para que a resposta não demorasse; mas o sorvete nem chegou a derreter e seus ouvidos ganharam de volta um ondulado eu te amo", in: Engravidando Palavras, de Lara Sales).

